Sabrina Noivas 130 - Bride By Choice

Um pedido de casamento romntico. O rico e charmoso Lorenzo Martelli pediu Helen em casamento diante de toda sua famlia. Como ela poderia recusar 1 proposta to romntica. No entanto, faltando poucos dias para a cerimnia, Helen descobriu 1 segredo na vida de Lorenzo...Ela precisava saber se era verdade, mas seu noivo era um siciliano de sangue quente... Lorenzo desejava-a ardentemente, e sempre conseguia o que queria! Como faz-lo esperar at que ela estivesse pronta para se entregar?

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2002
Publicao original: 2001. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo
     

Srie Irmos Martelli (Noivos Italianos) (The Italian Grooms)
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	Wife by Arrangement	Sabrina 1226 - Marido Substituto	Jun-2001

2	Husband by Necessity	Julia 1154 - Quando Chega o Amor	Jul-2001

3	Bride by Choice
Sabrina Noivas 130 - Finalmente Tua!	Jan-2002














PRLOGO

Heather olhou, ansiosa, para o painel onde -constava os avisos de embarque e desembarque no aeroporto de Palermo e com um sorriso nos lbios falou:
	Acalme-se. Vo cham-lo para o embarque em instantes.
	J estava na hora. L vou eu para Nova York!  Lorenzo animou-se todo, pegando a sacola de mo.
	No se esquea que est indo aos Estados Unidos a negcios, no para farrear  Renato lembrou-lhe com ar srio.
 Voc vai como gerente de exportao dos produtos Martelli. Trate de arranjar novos mercados para nossa empresa, isso sim. Nada de festinhas, enquanto seu irmo mais velho se mata de trabalhar  resmungou.
	Voc no consegue parar um minuto de pensar em negcios, querido!  Heather reclamou para o marido.  No se esquea de que Lorenzo pode trabalhar no intervalo das orgias  acrescentou rindo.
Heather tinha de admitir que o cunhado parecia um artista de cinema. Cabelos castanhos encaracolados, olhos azuis penetrantes, porte atltico, bastante alto e sorriso de garoto, resumindo: era extremamente atraente. Mesmo ali no aeroporto, em meio  agitao toda, chamava a ateno e rara era a mulher que no se voltava para olh-lo mais uma vez.
O incrvel  que ela havia pensado, no muito tempo atrs, que estava apaixonada por Lorenzo e, por isso, mudara-se para a Siclia na esperana de se casar com ele. Mas quando conhecera Renato, o mais velho dos irmos de Lorenzo, se apaixonara por ele.
As mulheres que conheciam os irmos Martelli ficaram surpresas por ela escolher Renato, que era srio demais e s pensava em trabalhar. Tambm no era bonito como o irmo caula.
Heather no se deixara levar pela aparncia fsica e descobrira que Renato  quem a interessava. Agora, aps oito meses de casamento, estava feliz e grvida. Mantivera a amizade com Lorenzo, que no parecia ter se aborrecido com a troca.
	Telefone logo que chegar ao Hotel Elroy  Renato pediu mais uma vez.  E no se esquea de...
	D para parar?  Lorenzo implorou.  Voc j me deu mil instrues e a mamma fez uma lista de amigos sicilianos que ela quer que eu visite em Nova York. No vou ter nem um minuto livre para mini. Tenho at um jantar marcado na casa da famlia Angolini, depois que a mamma ficou falando com eles ao telefone por mais de uma hora.
	Nosso av e Marco Angolini foram grandes amigos quando jovens, antes que Marco fosse morar na Amrica com a mulher e o filho  Renato comentou franzindo a testa.
	Mas acontece que faz anos que Marco Angolini morreu  Lorenzo reclamou desanimado. Vou ter de jantar com o filho dele, que j  velho, com sua esposa, igualmente velha, mais trs filhos que so mais velhos do que eu, e com as quatro filhas, Elena, Patrizia, Olvia e Carlotta, todas solteiras!
Renato riu, divertindo-se com o ar de pnico do irmo ao se lembrar de que as netas do velho Angolini eram todas solteiras e provavelmente ansiosas para se casar com um siciliano bonito e rico.
	Voc acha que elas vo querer ca-lo, irmozinho?
	Vamos dizer que estou me sentindo como algum indo para o matadouro... No se esquea de que os Angolini tm uma rede de frigorficos!  Lorenzo exclamou desesperado.
	Voc deveria se casar com uma das garotas Renato brincou.  Assim vamos unir dois negcios lucrativos, o da carne com o das nossas verduras. No podia haver combinao melhor.
	No fale nem mais uma palavra  Lorenzo ameaou-o, fingindo-se bravo.
Naquele momento, o alto-falante fez a chamada para o vo de Lorenzo. Renato abraou o irmo carinhosamente.
	Comporte-se! Se aborrecer a mamma, eu acabo com voc. Agora, embarque logo, seno vai perder o avio.
Lorenzo obedeceu, mas antes de entrar na sala de embarque virou-se e acenou sorridente para o irmo e a cunhada.
	Tenho certeza de que as netas de Marco Angolini vo mesmo tentar conquistar Lorenzo  Renato comentou meio preocupado.  Aposto que teremos problemas  vista.
	Nem toda mulher quer se casar com Lorenzo, querido. Lembre-se de que preferi voc a ele.  Heather sorriu feliz para o marido.
	Eu sei, querida. S fico apreensivo, porque Nova York  bem longe e no poderemos impedir que Lorenzo banque o conquistador e termine partindo o corao das meninas. Enfim, agora ele est por sua prpria conta e seja o que Deus quiser.


CAPITULO I

A neve cobria as ruas de Nova York, enquanto um vento gelado fazia com que as pessoas andassem mais depressa naquela tarde escura de fevereiro. O Hotel Elroy, o mais caro da Park Avenue, estava com as luzes acesas e parecia bastante acolhedor.
O novo segurana barrou a entrada de Helen e ela precisou mostrar o seu crach, onde estava escrito Helen Angolini, trai-nee. Comeara um programa de treinamento no qual centenas de candidatas disputavam uma nica vaga. J passara por dois estgios e chegada ao ltimo deles. Logo saberia se a vaga seria sua.
Helen sabia que se comeasse a chegar atrasada, jamais seria escolhida. Entrou no elevador e apertou vrias vezes o boto desejando que subisse o mais rpido possvel. Em um dos andares, entrou uma colega com quem dividia o apartamento onde morava.
	Achei que voc no fosse voltar hoje, Helen. No estava em Boston recepcionando uns turistas italianos?  Joanne perguntou surpresa, quando o elevador parou no andar onde estava acontecendo uma reunio de empresrios do setor de alimentao.
	Na verdade eu devia estar a caminho da casa de meus pais, mas, assim que cheguei ao aeroporto nosso gerente me telefonou avisando que eu deveria vir ao hotel. Ainda nem me livrei das malas.
	Esconda as malas naquele cantinho atrs das plantas  Joanne sugeriu.
Helen achou boa a ideia. Finalmente estava pronta para o trabalho.
As duas moas deveriam recepcionar os hospedes. Joanne era loira, baixinha e bastante atraente. Helen era mais alta, tinha um corpo escultural, cabelos bem pretos e olhos muito azuis Nascera nos Estados Unidos, mas suas caractersticas eram totalmente italianas, graas aos avs que haviam imigrado da Siclia.
Apesar de se orgulhar de ser norte-americana, Helen realava seu tipo latino com roupas de cores fortes. Naquele momento, usava um vestido de seda vermelho que combinava com os cabelos escuros e os profundos olhos azuis. Estava bastante sensual.
	Bem, l vamos ns!  Joanne estava animada com a perspectiva de vir a conhecer o grupo de empresrios.
	Estamos aqui a trabalho, no para nos divertirmos  Helen lembrou-lhe seriamente.
	E da? Podemos misturar negcios com prazer.
A sala Imperial ficava no oitavo andar. Era um lugar luxuoso com estofados elegantes, mveis no estilo antigo e vitrais nas janelas. As palestras j haviam terminado e uma recepo descontraa os empresrios. Os garons serviam canaps deliciosos e champanhe francs.
Jack Dacre, o chefe, viu-as chegando e se aproximou rapidamente.
	Ainda bem que voc chegou, Helen.
	Meu vo atrasou. Sinto muito, Jack.
	Depois voc me conta de sua viagem. Enquanto voc viajava, ouvi muitos elogios a seu respeito. Todos esto gostando de seu trabalho e espero que se saia bem aqui. O que voc sabe sobre essa reunio de hoje?
	Nada. No estava nem sendo programada, quando viajei para Boston.
	Bem, estamos com diversos empresrios do setor de alimentao, todos ligados  comida italiana e...  Jack parou de falar e deixou-a sozinha, pois estava sendo chamado por um pequeno grupo.
Helen pegou um copo de vinho e procurou localizar pessoas conhecidas. Braden Fairley, o diretor do hotel, estava conversando com um dos convidados, um bonito muito alto e de cabelos castanhos encaracolados. Ela notou que o rapaz parecia se esforar para se mostrar interessado pela conversa.
Enquanto caminhava pela sala, Helen pde observar melhor o estranho. Ele levantou os olhos e percebeu o interesse de Helen e sorriu. Seu olhar era irresistvel e ela retribuiu o sorriso sem se acanhar. Fairley voltou para o lado do estranho e ela aproveitou para conversar com a amiga.
	Hum, ele  um charme, no?!  Joanne tambm estava observando o mesmo convidado.  Nunca vi homem to bonito. E os olhos, ento? Nunca vi um azul to profundo!
	De quem voc est falando? Eu estava olhando para nosso diretor  desconversou Helen.
	E devo acreditar que voc s tinha olhos para o sr. Fairley e nem reparou naquele deus grego que est ao lado dele?!
	Que deus grego? Voc est exagerando, Joanne.
	Est bem. Se no  um deus grego, tem de ser um guarda-costas, daqueles que eu queria que tomasse conta de mim. Mas que chance tenho eu, j que voc est de olho nele?
	No estou absolutamente interessada nele  Helen retrucou sem muita firmezfe.
	Claro. Quem  que ia se interessar por um gigante de dois metros de altura, ombros de atleta e nenhuma gordura no corpo? Que guarda-costas ele deve ser!  Joanne suspirou.
 Sabia que ele piscou para mim?
	Tambm para mim. Deve ser do tipo que no pode ver uma saia.
	Percebeu que seu olhar parece sugerir um convite para lev-la para cama?
	Ah! Pare com isso  Helen exclamou.  Tenha juzo!
S de ficar ao seu lado, j vou perder minha reputao de moa sria.
	Tchau! Vejo voc mais tarde.  Joanne afastou-se com os olhos atentos para ver se encontrava algum outro homem bonito como aquele que conversava com o gerente.
Helen estava surpresa consigo mesma. No conseguia desviar os olhos do tal empresrio ou guarda-costas gigante como Joanne o chamara. Tentou ignor-lo inutilmente. Tambm ele parecia interessado nela. Helen tentou assumir um ar de indiferena, porm terminou sorrindo novamente.
Ele estava vestido informalmente, mas sua roupa elegante denunciava bom gosto e preo alto. Joanne tinha razo em ach-lo bonito, mas compar-lo a um deus grego era exagero, pensou e no conseguiu evitar um sorriso. Pelo fsico, at que poderia ser um guarda-costas, porm estava vestido bem demais para trabalhar como segurana.
Procurou se controlar. Devia estar trabalhando e no perdendo tempo olhando um dos convidados. Misturou-se  multido e tentou esquecer concentrar-se em seus deveres.
Meia hora depois, deu uma parada. Olhou em volta procurando localizar algum garom e viu-se, de repente, com um copo de champanhe na mo.
	Voc parece estar precisando disso, querida.  Erik, um dos gerentes do hotel, lhe trouxera a bebida.
	Estou mesmo. Obrigada, Erik.
Helen j sara com ele algumas vezes. Haviam ido ao teatro e at o levara para jantar com os pais dela. O relacionamento entre os dois era um misto de amizade e namoro, mas nada muito srio. No hotel, contudo, todos achavam que eles namoravam.
	De volta ao trabalho  ela disse, terminando de beber o champanhe.
Voltou a conversar com os empresrios, at que uma hora mais tarde j estava cansada e resolveu fazer outra pausa.
	Exausta, no ?  Quem estava ao seu lado era justa mente o estranho que tanto a atrara horas antes.
	Conseguiu escapar do diretor do hotel?  ela perguntou sorrindo.
	Finalmente. Ele  uma boa pessoa, mas repete as mesmas coisas mil vezes. J estava com os msculos doendo de ter de  manter o sorriso o tempo todo. S ele falava!
De fato, o estranho era bastante alto, pensou Helen. E atraente. No pde deixar de pensar que havia sido muito feliz na hora de escolher a roupa para aquela recepo.
	Vamos ficar conversando, antes que algum aparea e cole em mim como o sr. Fairley fez.
Caminharam at uma varanda que dava para a Park Avenue totalmente iluminada.
	Uau!  ele exclamou, maravilhado com a vista.
	Incrvel, no ? Esta  sua primeira viagem a Nova York?
Helen no conseguia identificar de onde ele viera, apesar da certeza de que ele no era norte-americano.
	De fato esta  minha primeira viagem aos Estados Unidos o "guarda-costas" confirmou, continuando a admirar a vista da avenida.  Cheguei h dois dias e ainda no consegui me acostumar com o que vejo. Nova York  mesmo especial.
	Sente-se que vou providenciar alguma coisa para voc comer.
Momentos depois, enquanto ele comia, Helen sentou-se em uma poltrona ao seu lado.
	Voc parece cansada, como se tivesse andado pelas ruas por dias. Bem, no quis dizer que voc  uma dessas mulheres de rua...  Ele parou de falar, surpreso ao ver que Helen no se ofendera com seu comentrio, pelo contrrio, esforava-se para no rir.
	Os tempos mudaram e mulheres desse tipo no ficam mais paradas nas esquinas. Recebem os fregueses em seus apartamentos e algumas at tm secretrias. Agora voc deve estar pensando como  que eu sei dessas coisas...  Helen acrescentou, meio sem jeito.
	Claro que no  ele assegurou.  Posso ver que voc  uma moa moderna com grande conhecimento das condies sociais. E eu fico aborrecido a cada vez que abro a boca e falo bobagens como as que disse agora h pouco. Por favor, me desculpe.
Helen estava adorando a maneira que aquele homem se expressava. Riu novamente, quando ele tentou continuar se desculpando.
	Como voc trabalha no hotel, deve encontrar esse tipo de moas  ele comentou.
	No por aqui. O Elroy no aceita esse tipo de encontros.
Dessa vez, o "guarda-costas" cobriu os olhos com as mos em uma atitude de total desespero.
	Meu Deus, s falo bobagens! Voc deve estar tendo uma pssima impresso de mim.
Helen estava se divertindo com aquela situao. Observou-o melhor e concluiu que aquele homem era mais novo do que lhe parecera no primeiro momento. Devia ter uns trinta anos no mximo.
Ele tirou as mos dos olhos e fixou-os no crach de Helen. Pareceu estranhamente surpreso com o que leu, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela se levantou para buscar mais alguma coisa para ele comer e beber.
	Voc pretende deixar seu emprego e se filiar ao restaurante italiano que os empresrios, reunidos aqui, esto querendo montar?  ele perguntou indicando um folheto que carregava.
	No, no. Na verdade, estou nesta reunio, porque muitos dos convidados so italianos e meu chefe insiste em me considerar italiana, o que  bastante injusto...
	Por que  injusto?
	Porque no  verdade. Meus pais so italianos, esta  a razo do meu nome. Nasci aqui em Nova York. Sou norte-americana, cresci em Manhattan e nunca coloquei um p na Itlia. Tenho uma carreira e meu prprio apartamento, mas minha me continua a me perguntar quando vou criar juzo e me tornar uma boa esposa para um bom rapaz italiano.
	E o que voc responde?  ele perguntou interessado.
	Eu lhe digo que no existem bons rapazes italianos. Todos so como papai.
	E voc no gosta de seu pai?
	Eu o adoro  Helen afirmou seriamente.  Tambm adoro meus irmos, mas no vou me casar com nenhum deles. Honestamente acho que meus pas acreditam que vo voltar um dia para a Itlia. E meus irmos, que tambm nunca estiveram na Itlia, se acham italianssimos... No  um absurdo?!
A indignao que ela sentia deixava seus olhos mais brilhantes. Teve vontade de provoc-la, pois quando brava ela ficava ainda mais bonita. No fez qualquer comentrio, porm. Helen parecia ter gnio forte e se perdesse a calma, sabe-se l o que poderia fazer.
	Sua famlia vem de que parte da Itlia?  ele perguntou curioso.
	Da Siclia  ela respondeu com certa raiva.  Uma terra onde os homens mandam e as mulheres conhecem os seus lugares. Voc acredita que escutei meu pai dizer exatamente isso?
	Claro que acredito. Se os homens da Siclia esto acostumados com esses privilgios, no vai ser fcil desistirem deles sem luta.
	Bem, tambm sei lutar.  O desabafo escapou sem que Helen pudesse evitar.
	Tenho certeza que sim. Se eu tivesse bastante coragem, diria que voc mostra sua origem siciliana a cada palavra que pronuncia.
	O qu?
	Calma. Quero dizer que voc tem temperamento latino, bem dos italianos. Mas como sou covarde, no vou insistir nessa teoria.
	Voc  muito sensato no se atrevendo a me chamar de italiana.  De repente, Helen parou de falar e se lembrou de que estava ali a trabalho.  No devia estar ocupando todo o seu tempo.  comentou.  Afinal, voc no veio aqui para conversar e sim para fazer negcios.
	Pois eu acho que estou fazendo exatamente o que esperam que eu faa.  ele disse pensativo.
Antes que Helen tivesse tempo de lhe perguntar o que aquelas palavras significavam, uma mulher separou-se de seu grupo e beijou-o rapidamente na boca.
	Tchau, querido  ela falou com voz sedutora.
Era Angela Havering, uma das trainees com quem Helen nunca simpatizara. Angela beijou-o uma segunda vez, antes de se jogar nos braos de outro homem.
	No sabia que voc conhecia Angela  Helen observou curiosa.
	Eu a conheci esta noite. Um pouco antes de voc chegar.
	Mas eu no o chamo de querido!
	Pode chamar, se quiser. Por que no vamos tomar uma bebida depois que sairmos daqui?
	No posso. Tenho coisas urgentes a fazer.
	Tais como?
	Estou planejando uma morte bem dolorosa para um tal de Lorenzo Martelli.
O copo caiu sobre a mesa e ele engasgou.
	O que aconteceu?  ela perguntou curiosa.
	N-nada  ele gaguejou, tentando se recuperar.  Soltei o copo sem querer, E por que voc quer matar esse Lorenzo Martelli?
	Bem,  isso ou terei que me casar com ele.
	Como assim?
	Veja, daqui a alguns minutos vou a uma festa familiar na casa. de meus pais para conhecer esse Martelli. Ele  siciliano. Sua famlia e a minha se conheceram anos atrs e agora como ele est em Nova York, no pode deixar de nos visitar.
	E por que voc tem de se casar com ele?
	Porque meus pais decidiram exatamente isso.
	Mas voc nem o conhece...
	E loucura, no? Meus pais souberam da vinda de Lorenzo, acharam que ele seria o marido ideal para mim e me deram simplesmente a notcia achando que eu ficaria feliz. Tive de ouvir o tempo todo que ele viria para os Estados Unidos com a firme deciso de encontrar uma esposa siciliana.
	Por que ele no escolheria a esposa siciliana na prpria Siclia?
	Foi exatamente isso que eu disse para os meus pais. A verdade  que ele deve ser feio, gordo e ningum o quer por l.
	Deve ser isso  o "guarda-costas" ele concordou.
	De qualquer forma, meus pais vo recepcion-lo como se ele fosse um prncipe. Hoje  noite, vou ter de me sentar  mesa e me comportar como uma filha italiana perfeita e obediente.
	Olhe, esta  uma cena que eu adoraria ver...
	Pois . Posso estar querendo enforcar o tal Martelli, mas terei que me comportar dreitinho, pelo menos, enquanto estiver na frente dos meus pais. Haver um segundo encontro, e a no vou responder pelas consequncias.
	Mas voc tem de reconhecer que o moo no tem culpa de seus pais haverem tomado essa deciso.
	Tem a culpa de existir e vou fazer um favor ao mundo em extermin-lo  Helen falou com firmeza.
	J decidiu como vai elimin-lo?
	Bem, pensei em cozinh-lo em leo quente, mas provavelmente isso  pouco para ele.
	E sem muita imaginao...
	Tem razo. Quem sabe escorpies e aranhas faam o servio.
	Voc no est sendo um pouco cruel demais?  ele tremeu ligeiramente.  Quem sabe no se apaixona por ele e queira at se casar.
	Prefiro a morte! Inclusive a minha, se a dele no for possvel.
	Por que voc implica tanto com os italianos?
	Porque os homens italianos so verdadeiros demnios.  Esto fora de moda, so dominadores. No se pode confiar neles e, alm do mais, so infiis por natureza.
	Se voc pensa assim, no precisa colocar toda sua raiva contra apenas um homem. V contra todos eles. Declare guerra aos italianos.
	Tenho chance contra' esse. Sabe que os italianos casados continuam se considerando solteiros e com direito a aventuras extraconjugais? Isso me d arrepios de raiva.
	Ento, voc s quer se casar com um norte-americano sem qualquer origem italiana?
	De preferncia. Veja bem, sei exatamente o que est passando pela cabea de Lorenzo neste exato minuto.
	Ah! No sabe no!  ele retrucou sorrindo.
	O que voc quer dizer com isso?
	Nada, nada. Foi somente um pensamento que tive.
	Lorenzo sabe que somos quatro irms solteiras, l em casa. Deve estar esperando escolher entre Patrizia, Olvia, Carlotta e eu.
Ele no comentou nada, apenas abriu um pouco o colarinho da camisa, como se estivesse sentindo um pouco de falta de ar.
	A famlia Martelli  bem rica e eles devem achar que Lorenzo  uma espcie de deus e que todos sonham em se casar com ele.
	Ser?!
	Isso mesmo. Sei que voc vai pensar que estou fazendo confuso por nada, mas sou assim mesmo.  Helen olhou as horas e viu que j era tarde.  Que pena, mas preciso ir embora. Vou chamar um txi.
	Eu lhe ofereceria uma carona, se j tivesse alugado um carro. Quem sabe posso lev-la at seu txi.
	Seria timo... Ora, conversamos tanto e voc ainda no me disse seu nome.
	 mesmo, no ? Ei, espere um pouco. Parece que esto me chamando naquele grupo. V descendo que eu a encontro em um minuto.
Joanne ajudou Helen a encontrar suas malas e coloc-las no elevador. Antes de sair, Helen procurou seu chefe e pediu dispensa. Ficou satisfeita com os elogios que ele lhe fez.
	Pode ir. J fez um excelente trabalho. Sabia que podia contar com voc.
Helen estranhou tanto entusiasmo, mas gostou de ser elogiada. Quando o rapaz com quem estivera conversando reapareceu, o sr. Dacre lhe acenou com satisfao.
J na calada em frente ao hotel, Helen perdeu o acanhamento e teve uma ideia que lhe pareceu brilhante.
	Venha comigo at a casa de meus pais. Jante conosco.
	O que voc est planejando?
	Veja, chegamos juntos, eu o apresento a todos e minha famlia vai pensar que somos namorados.
	Com isso, o tal Martelli vai saber que no tem chances com voc.
	Isso. Por favor, no vou lhe causar nenhum problema, pode acreditar.
Ele tinha dvidas quanto a isso. Cada vez sua situao ficava pior e nem queria imaginar quando Helen Angolini descobrisse quem ele era de fato. No entanto, s de olhar aqueles olhos brilhantes que o fitavam ansiosos, no conseguiu resistir e resolveu continuar com a farsa.
	Est bem, irei junto. Esse italiano precisa mesmo de uma lio.
	Voc  maravilhoso, sabia?
	Sou louco, isso sim.
O txi chegou e Helen percebeu que Erik estava na porta do hotel acenando para ela, como se quisesse lhe dizer alguma coisa. Ela esperou que ele se aproximasse.
	Saiu da toca do leo, hein?  Erik tambm parecia satisfeito.  Eu lhe daria uma carona at a casa de seus pais, mas sei que eles no gostam muito de mim. Depois me conte sobre sua viagem. V, querida.  Ele beijou o seu rosto e sumiu para dentro do hotel.
	 seu namorado?  seu novo amigo perguntou cheio de curiosidade.
	Mais ou menos. Outro dia, levei-o para jantar em casa e minha me tentou sabotar qualquer tipo de relacionamento que tivssemos. Ficou contando histrias ridculas de quando eu era criana e alertando sobre meu gnio latino. Erik nem se abalou e contou a ela que era descendente de viking e que podia enfrentar qualquer italianinha brava. Mamma acabou ficando sem jeito e parou de perturb-lo. Mesmo assim, nunca mais o levei l.
	Voc se encontra com ele s escondidas?
	Nada disso. Samos algumas vezes juntos. No preciso esconder meus encontros de meus pais, porque no vivo com eles. Aluguei um apartamento e moro com uma colega.
No txi, Helen comentou que estavam indo para um bairro de Manhattan, chamado Pequena Itlia. Mesmo longe de seu pas, os italianos ainda se organizavam em grupos fechados.
O celular tocou e Helen atendeu imediatamente.
	Sim, mamma... J estou a caminho e chegarei em menos de meia hora. Tambm estou ansiosa em conhec-lo. Concordo que  maravilhoso ele nos dar a honra de jantar conosco.  Ela desligou, suspirando.
	Voc mente com perfeio.  Seu acompanhante sorria divertindo-se com a raiva de Helen.
	Era o que mamma queria ouvir  ela respondeu.  No vou irrit-la.
Helen sentiu um pequeno arrepio pensando nas consequncias de seu ato impulsivo ao convidar um estranho para jantar na casa de seus pais, justo no jantar preparado para o homem que pretendiam que ela aceitasse como noivo.
O bairro italiano ficava a poucos quilmetros do Hotel Elroy e chegaram rapidamente. Mesmo estando sempre a criticar as coisas italianas, Helen reconhecia que gostava de estar naquelas ruas to familiares. Era um bairro simptico, onde todos se conheciam.
O txi parou em frente do Frigorfico Angolini, a empresa de carnes do pai de Helen. A famlia Angolini continuava morando no mesmo apartamento do comeo dos negcios. Podiam ter se mudado para alguma manso, pois Nicolo Angolini enriquecera com o comrcio de carnes. Ficaram no mesmo apartamento porque Nicolo no queria sair do bairro italiano.
Helen percebeu que havia gente nas janelas, olhando-a descer do carro. Bairro pequeno era assim mesmo, com os vizinhos querendo saber de tudo o que acontecia na vida dos outros. E, sendo italianos, estavam interessadssimos em saber se a filha mais velha de Nicolo Angolini havia arranjado um noivo.
	Veja, todos esto olhando para ns. Vamos deix-los bem satisfeitos.  Seu acompanhante pagara o txi e agora colocara seu brao carinhosamente no ombro de Helen.
	O que voc est sugerindo?
	Algo assim.  Ele aproximou seu rosto do dela, de modo que seus lbios ficaram bem perto.
	O que est fazendo?  ela sussurrou, perturbada com aquela proximidade. Queria estar brava, no entanto sentia uma espcie de excitao percorrer seu corpo.
	Estou dando a voc a chance de dar uma lio no pessoal todo.
	At parece fcil.
	Veja, voc quer passar a imagem de mulher moderna, independente e liberada ou quer ser ainda a filhinha bem-comportada  espera de um marido arranjado pela famlia?
Helen pensou um pouco e concluiu que o "guarda-costas" tinha razo.
	No costumo beijar os rapazes com quem saio, pelo menos no no primeiro encontro  Helen retrucou baixinho.
	Bem, eles no sabem que este  nosso primeiro encontro.
	Mas eu nem sei ainda o seu nome  Helen comeou a dizer, porm foi interrompida por um beijo delicado em seus lbios.
Helen tentou se convencer que aquilo era apenas uma brincadeira. Percebeu que ele se divertia e lhe fazia um convite para participar do beijo. Instintivamente, retribuiu a carcia, enquanto se sentia envolver por um clima de excitao e prazer. Estava beijando um estranho e querendo que o beijo durasse mais e mais. Depois de um certo tempo, procurou se controlar e afastou-o suavemente.
	Acho que j os convencemos.
	Isso se voc retribusse mais  ele murmurou.  Vamos, coloque os braos em torno do meu pescoo.
Helen tentou se convencer de que tudo aquilo no fazia sentido, que tinha de parar, mas se deixou puxar para bem perto dele e ser novamente beijada. Sem perceber bem o que fazia, comeou a beij-lo apaixonadamente. No estava mais fingindo para os vizinhos verem.
	Estamos exagerando  falou finalmente, conseguindo encontrar foras para se separar dele.
	Nem mesmo comeamos  o "guarda-costas" sussurrou com voz rouca. Parecia surpreso e feliz ao mesmo tempo.
	Vamos subir  Helen disse apressadamente. Estava meio assustada, bastante trmula.  Se Lorenzo Martelli nos viu, voc  um homem morto...  Helen tentava levar a conversa para um clima de brincadeira.
	Deixe-o tentar. Estou preparado para tudo!
Escutaram vozes excitadas ao se aproximarem da porta de entrada do apartamento.
	Voc no vai brigar comigo, vai?  ele perguntou ansioso.
	Por que faria isso? No vai haver briga alguma.
	Ah! Voc  que pensa...
Helen sentiu-se confusa, sem conseguir entender bem o que ele queria dizer. Mas antes que lhe pedisse uma explicao, a porta se abriu e sjia me apareceu toda animada.
	Mamma, eu trouxe algum que quero apresentar a voc. 
	Eu os vi chegando, claro. Todos ns vimos. Quando papai nos disse quem ele era, fomos pegar nosso melhor champanhe.
	Papai conhece o meu amigo?
	Foi ele quem foi busc-lo no aeroporto, dois dias atrs. Agora se convenceu de que lhe arranjamos um marido maravilhoso?  Mamma Luzia sorria de orelha a orelha.
Helen sentiu uma tontura ao entender finalmente o significado daquilo que sua me dizia. No podia ser verdade, pensou. Era monstruoso, ultrajante! Vendo seu pai cumprimentar o jovem com quem ela viera, Helen escutou estarrecida ele o chamar de Lorenzo! E suas trs irms riam em torno do visitante, levando-o para dentro do apartamento.
L estava Lorenzo Martelli abraando todo mundo e a olhando meio apreensivo e disfarando um ar de arrependimento misturado com um qu de satisfao.
Ela fora covardemente enganada.
CAPITULO II

Lorenzo Martelli era um belo homem, reconheceu Helen. Alto e msculo, corpo perfeito, olhar confiante. Devia ter filas de mulheres atrs dele. Rico, bonito e sicilianol E a enganara! Helen no conseguia aceitar que fora coincidncia eles se encontrarem na festa. Lorenzo devia saber que ela trabalhava no hotel e fora ver se valia a pena pensar em casamento com algum da famlia Angolini.
Ela estava pensando bobagens. Estivera em Boston, voltara naquele mesmo dia. Parecia que fora mesmo o destino a colocar Lorenzo Martelli em seu caminho. E ela o beijara!
A me de Helen estava eufrica, beijando a filha sem parar.
	No  maravilhoso?  ela repetia.  Vocs dois se dando bem, mal se conhecem. Espere at eu contar para sua tia Lcia...
Helen tremeu s em pensar que a notcia de seu romance com Lorenzo Martelli iria ser espalhada por todos os Estados Unidos, se dependesse da me.
	Por favor, mamma, no conte nada para tia Lcia.
	Tem razo. Vamos esperar at que voc esteja com o anel de noivado no dedo. E no deve demorar para isso acontecer. Antonieta Martelli estava torcendo para vocs se apaixonarem um pelo outro. Voc est vendo a felicidade de seu pai?
	Mamma!
	Est bem, est bem. Mas voc tem de me contar como o conheceu.
	Ele estava na recepo do hotel, hoje  noite.
	Claro, claro. Ele veio aos Estados Unidos para vender seus produtos. A famlia tem um negcio lucrativo com verduras. Ah! Meu Deus! Este  um casamento planejado no cu!
	No vai haver casamento algum. No estou noiva nem vou concordar em me casar com Lorenzo Martelli de jeito nenhum.
	O que voc est dizendo?  mamma Angolini gemeu.  Que tipo de moa  voc que fica beijando um rapaz na frente da casa, sob os olhos de todos os vizinhos, e me vem dizer que no pretende se casar com ele? Perdeu o juzo?
	No tinha tanta gente assim olhando, mamma.  Helen pensou melhor e reconheceu que vira muita gente espiando pelas janelas abertas.
Reconheceu que se metera em uma encrenca. No podia contar a verdade para sua me. Sua famlia no se escandalizara vendo-a beijar um rapaz na frente do apartamento, somente porque sabiam que ele era justo o noivo que haviam escolhido para a filha.
	Se voc pensa assim, por que estavam se beijando?
	 melhor conversarmos l dentro  Helen disse meio desconsolada.  Acontece que Lorenzo  atrevido, s isso.
	Deve  ter gostado de voc, isso sim. Vamos entrar que quero conhec-lo melhor!  Mamma Luzia entusiasmou-se novamente.
O apartamento estava cheio. L estavam seus irmos casados junto com elposas e filhos, alm dos pais, das irms e mais alguns primos e primas. Naquele momento, Lorenzo era o centro das atenes e todos o rodeavam fazendo perguntas da Itlia.
Lorenzo trouxera uma sacola cheia de presentes e estava distribuindo um a um. Mamma Angolini estava com lgrimas nos olhos ao receber o seu pacote. Helen no conseguiu deixar de se emocionar ao ver a me to feliz e quase desculpou Lorenzo por t-la enganado.
	Ele  lindo  Patrizia sussurrou para Olvia e Carlotta.  Oh, Elena, voc tem sorte!	
	Meu nome no  Elena  Helen reclamou, mas as irms nem estavam prestando ateno ao que ela dizia.
	Quero ser dama de honra  Carlotta, que s tinha quinze anos, declarou com ar decidido.
	Voc vai estar na lista das pessoas desaparecidas se no parar com essa histria de casamento  Helen ameaou-a inutilmente. No adiantava, pensou. As irms trocavam olhares significativos, achando que ela estava apenas querendo se fazer de difcil e fingindo que no queria se casar com aquele homem maravilhoso chamado Lorenzo Martelli.
Helen aproximou-se do convidado e disfaradamente procurou lhe passar um recado.
	Temos que conversar.
	Olhe, sinto muito por no ter contado quem eu era.
	Fique certo de que voc vai se arrepender por ter me enganado! Deve ter-se divertido muito com meus planos de assassinar Lorenzo Martelli.
	No planejei engan-la, s que no sabia como lhe contar que voc estava exatamente planejando o meu assassinato...
	Voc  desprezvel  Helen sussurrou, enquanto fingia sorrir, pois percebera que todos os olhos estavam voltados para os dois.
	No pretendia que as coisas acontecessem desse jeito, eu juro.
	J contou  minha famlia o que nos aconteceu?
	No disse nada.
	Nem diga, seno  um italiano morto.
Helen olhou a movimentao toda da sala. Haviam aberto a porta que ligava o ambiente  cozinha e podia-se sentir o cheiro delicioso da comida que mammaJLuzia preparara.
Enquanto todos rodeavam Lorenzo, Helen aproveitou para se afastar um pouco e recuperar a calma. Ficou se lembrando das palavras que dissera a Lorenzo durante a recepo no hotel. Praticamente lhe contara que seus pais estavam planejando unir a famlia Angolini com a Martelli. Como se ela no I tivesse a liberdade de escolher um marido por conta prpria |e algum por quem estivesse de fato apaixonada.
Pior ainda. Tinha que reconhecer que retribura seu beijo I e sentiu-se completamente arrasada. No podia deixar que nin-Igum percebesse como estava se sentindo. Felizmente todos (estavam olhando para Lorenzo e no para ela.
Ruborizou, quando percebeu que justamente Lorenzo estava observando-a com um sorriso nos lbios e uma pergunta no olhar. Era um sorriso irresistvel, reconheceu, mesmo a contragosto.
Tinha que tomar cuidado com aquele conquistador. No mnimo, ele j estaria cantando vitria e achando que a conquistara.
	Sua me me telefonou avisando que voc viria para Nova York.  Mamma Luzia conversava com Lorenzo.  Disse a ela que teramos prazer em receb-lo em nossa casa.
	Vocs so maravilhosos e esto fazendo com que eu me sinta em casa  Lorenzo assegurou. Aproveitou tambm para sorrir para todos que estavam sentados  mesa saboreando aquela comida deliciosa.
Estava mesmo satisfeito e se sentindo na Itlia. Alm do mais, adorara conhecer Helen.
	Voc tem irmos?  Carlotta perguntou interessada.
Lorenzo procurou prestar ateno na pergunta da irm de Helen.
	Tenho dois irmos, Renato e Bernardo, ambos mais velhos do que eu. Nenhuma irm, mas uma cunhada maravilhosa. Renato se casou recentemente com uma inglesa chamada Heather e logo vo ter um filho.
	No sabia que seus pais tiveram trs filhos. Pensei que fossem apenas dois  Nicolo Angolini comentou surpreso.
	Somos em trs.  Lorenzo parecia meio tenso, como se tivesse algo a comentar sobre seus irmos, mas no querendo dizer nada naquele momento.
Helen observou-o em silncio. Ele era uma companhia excelente. Simptico, contava histrias divertidas. A famlia inteira estava com ares de que aprovara o casamento entre Helen e Lorenzo. Onde ela encontraria foras para declarar que no se casaria jamais com algum como ele?
Notou que Lorenzo a observava novamente. Ele estava conversando com Giorgio, um dos primos de Helen que viera tambm para o jantar. Giorgio reclamava que no conseguira vender seus produtos para os Martelli e aproveitar aquela oportunidade para resolver o problema.
Lorenzo conseguiu, enfim, escapar de Giorgio que era uma pessoa bastante desagradvel. Havia agora uma boa razo para no se casar com Helen Angolini. Os homens da famlia eram antiquados demais e se sentiam superiores s mulheres. Pelo menos, Giorgio era assim e Nicolo Angolini parecia mando demais.
Ningum parecia estranhar o comportamento deles e somente Helen, que trabalhava fora, parecia deslocada. A famlia Angolini agia como se vivesse ainda na Itlia medieval.
	A comida est soberba.  Lorenzo tinha de reconhecer que o jantar fora delicioso.
	Isso porque minha mulher preparou a carne do meu frigorfico  Nicolo Angolini gabou-se.
Lorenzo percebeu que mamma Luzia no gostou do comentrio, mas no reclamou.
As mulheres italianas respeitavam os maridos e no os contrariavam em pblico. Decidiu tirar os pratos da mesa e chamou as filhas para ajud-la. Imediatamente, formaram-se dois grupos, o dos homens e o das mulheres e cada um ficou em um canto conversando sem se misturar.
A festa terminou quando Nicolo Angolini bocejou e declarou que era hora de ir dormir.
	Hora de ir embora  Lorenzo disse, aproveitando para levantar-se.
	Nada disso. Voc fica mais um pouco!  mamma exclamou.  Helen vai fazer um cafezinho para voc.
	Fique, por favor  Helen disse, forando Lorenzo a sentar-se novamente.  Temos muito que conversar.
Lorenzo olhou-a meio apreensivo. Os convidados foram saindo e, logo depois, os pais e as irms de Helen se retiraram para dormir. Helen e Lorenzo ficaram sozinhos na sala.
	Ento voc  Lorenzo Martelli  murmurou com raiva.
	O prprio  ele admitiu.
	E tem sido Lorenzo Martelli todo o tempo, mesmo quando eu comentava sobre a forma como o mataria.
	Bem, no d para se ficar mudando de identidade, no ?
	E era Lorenzo Martelli quando me beijou l embaixo?
	Eu mesmo.
	Voc agiu assim, embora soubesse que eu no queria nada com o noivo que meus pais estavam me arranjando?
	Voc no me conhecia e estava falando de algum que nunca vira.
	Pois detesto mais Lorenzo Martelli agora que o conheo. Beijar-me daquele jeito foi um ato desprezvel e se meu pai ficasse sabendo que voc me enganou, voc estaria em uma encrenca danada.
	Ele quer que nos casemos  ele comeou dizendo, mas parou ao ver que ela pegara um livro da estante e estava prestes a jog-lo em sua dreo.  No faa isso... Olhe, reconheo que no agi bem roubando aquele beijo, mas a culpa  sua...
	Como?!  Helen interrompeu-o, furiosa.
	Acontece que me deixei levar por sua beleza e...
	Estou lhe avisando, Martelli, no insulte minha inteligncia. Voc devia se envergonhar do que fez. Nenhum cavalheiro agiria assim.
	No sou um cavalheiro  ele protestou rapidamente.  Nunca pretendi ser um.
	Voc conseguiu aquele beijo de forma desonesta.
	Que tal eu devolv-lo agora?
	D mais um passo e voc estar morto!
	J que estamos neste ponto, quero lhe lembrar que no fui s eu que beijei... Voc gostou do beijo e o retribuiu.
	 mentira. Nada no mundo me convenceria a beij-lo, se soubesse quem voc era, realmente.
	Ora, Helen... Eu sei muito bem, quando uma mulher retribui um beijo.	
	Vai se gabar de sua experincia com as mulheres?
	Calma!  Lorenzo resolveu no continuar com a discusso.
	Vamos analisar a situao  Helen aparteou, tentando se acalmar.  Todos na rua nos viram beijando, o que torna o ato pblico demais. No posso lhes contar que nem sabia como voc se chamava, porque isso iria desgraar minha famlia, inclusive todos os meus ancestrais l da Siclia. Minha me est morrendo de vontade de contar  tia Lcia, que mora em Maryland, que vamos nos casar e tenho certeza de ela vai contar para tia Zita, que vive em Idaho, que telegrafar para Los Angeles, contando a notcia para mais parentes. Hoje nosso "namoro" est sendo espalhado por Nova York e amanh o mundo inteiro vai saber do nosso beijo. Voc tem conscincia de que todos acham que ns dois vamos nos casar?
	Sem problemas. Resolvo isso sem nenhum problema.
	Como?
	Juro que nunca vou pedi-la em casamento. Voc pode ficar sossegada. E vou falar para seus pais que eu decidi no me casar, porque no gostei muito de voc.
	Depois do que eles viram l na rua?
	Direi que no gostei do beijo e...  Lorenzo esquivou-se do livro que veio voando em direo  sua cabea e se chocou contra a parede fazendo um barulho considervel.
	Fora!  Helen ordenou, furiosa.	
	No devemos marcar nosso prximo encontro? Sua famlia espera que nos vejamos novamente.
	Fora!
	Voc vai passar a noite aqui?  ele perguntou, dirigindo-se para a porta.
	No, vou voltar para meu apartamento.
	Ento temos que sair juntos.  Lorenzo procurou parecer resignado.  Tambm tenho que voltar ao hotel.
	Signor Martelli, voc no escutou nenhuma palavra que eu disse. Para mim, seria timo que nem vivssemos no mesmo planeta, imagine se vou querer compartilhar o mesmo txi com voc.
	Eu sei, mas temos que fazer alguns sacrifcios.
	Quem  que pode afirmar que eles esto esperando que saiamos juntos?
	Todos esto espiando pelas frestas das janelas.
	Voc se refere  rua inteira, no ?  Helen tinha de reconhecer que Lorenzo estava com a razo.  Chamarei um txi, ento  concordou.
No tinha outro jeito. Precisavam sair juntos, seno os vizinhos iriam falar barbaridades sobre eles.
Felizmente o txi chegou depressa e tanto Helen como Lorenzo agiram com naturalidade. Lorenzo ajudou-a descer as escadas do prdio, que estavam escorregadias com a neve. Helen tambm permitiu que ele lhe abrisse a porta do carro. Apesar de no olhar para as janelas da vizinhana, sabia que muitos olhos os estavam observando.
Quando o carro se distanciou, Mamma Luzia abaixou a cortina da janela de seu quarto e suspirou.
	Voc viu como ele a ajudou a entrar no carro?  perguntou ao marido.
	Vi, mas que barulhos foram aqueles que escutamos quando eles estavam na sala?
	Aquilo no foi nada  Luzia explicou, alegremente.  Eles estavam simplesmente tendo uma pequena discusso de amor.
	Vamos parar para beber alguma coisa?  Lorenzo perguntou, quando o carro estava a caminho do Hotel Elroy, onde ele estava hospedado.
	Nem pensar.
	Ah, sei... Voc resolveu me tratar com indiferena.
	Voc tem sorte por eu ter deixado de lado meus planos originais. Lembra-se de que pretendia cozinh-lo em leo quente?
	Pode prosseguir com seus planos, se isso a faz se sentir melhor.
Helen esforou-se para no rir. A situao era ridcula. Lorenzo percebeu que ela estava no estava mais de mau humor e aproveitou para pegar sua mo e beij-la.
Ela se surpreendeu por sentir prazer com o contato daqueles lbios em sua pele. Percebeu que ele parecia estar se aproximando mais e mais e talvez pensando em beij-la. Devia parar com aquilo imediatamente.
Antes que esboasse qualquer reao, Lorenzo parou e se afastou dela. Helen foi tomada por uma sensao de perda, como se todo o seu corpo estivesse esperando por um contato mais pessoal.
	L est o Elroy. No precisa se preocupar com meus pais, pois amanh irei procur-los e lhes direi que resolvemos no nos ver mais.
	E os planos de casamento?
	Direi a mamma que decidimos que no combinamos um com o outro.
	Depois do que ela viu?
	Direi que nos iludimos diante da expectativa de todos.
Que nos deixamos levar e...
O txi parou em frente do hotel.
	Boa noite, sr. Martelli. Foi um prazer conhec-lo e lhe desejo sucesso nos negcios.
	Duvido muito... Deve ainda estar querendo me cozinhar em leo quente.
	Eu estava lhe dando a verso mais educada.
	Nesse caso, obrigado, srta. Angolini, pela noite maravilhosa. Espero que nossos caminhos se cruzem novamente.
	No se eu puder evit-lo  ela respondeu, fingindo indiferena. Quando Lorenzo entrou no hotel, Helen disse ao chofer o endereo de seu apartamento.
Helen sentiu-se cansada e confusa. Havia feito a viagem de Boston a Nova York, participado da festa no hotel, jantado com a famlia e conhecido Lorenzo Martelli. Fora uma noite e tanto, daquelas para no se esquecer to cedo.
Sua amiga Joanne j estava deitada, quando ela entrou no apartamento.
	Que tal foi a noite?  perguntou animada.  Eu a vi saindo com o "guarda-costas". Ele  to charmoso quanto aparenta?
	 bonito, mas chato.  Helen procurou falar com voz convincente. No ia entrar em detalhes do que acontecera entre ela e Lorenzo Martelli, nem contaria que o bonito da festa era o noivo que estava sendo arranjado para ela.
Tomou banho e foi dormir e, mesmo contra sua vontade, sonhou que estava na Siclia casando-se com Lorenzo Martelli.
Quando acordou, procurou se convencer de que tivera um pesadelo.
Na manh seguinte, Helen encontrou uma mensagem que a mandava se apresentar a Jack Dacre, seu chefe.
 Tenho um novo servio para voc  ele disse, to logo ela entrou em sua sala.  Como sei que voc gostou do sr. Martelli, acredito que vai se sair bem novamente.
	Do que se trata?
	Quero que tome conta do sr. Martelli. Aparentemente ele no sabe to bem o ingls como pensei a princpio. Ele me procurou e admitiu que finge entender o que falamos. Est mais familiarizado com o dialeto siciliano e quer um intrprete. Pediu que voc fosse esse intrprete. Assim, pode observ-lo bem e isso trar proveitos para ns do hotel. Acho isso muito bom. Estamos interessados nos produtos que ele representa.
	Vai ser bom especialmente para Lorenzo Martelli  Helen murmurou baixinho.
Como no tinha jeito de desobedecer a seu chefe, foi bater na porta do quarto de Lorenzo. Era uma profissional e nem todo trabalho tinha de ser agradvel.
A porta abriu-se como que por si s e Helen encontrou Lorenzo com ar meio apreensivo.
	Pare de fingir-se de bobo  ela disse exasperada.
	 bom ver voc de novo.
	Sei que est fingindo que no fala nem entende bem ingls. Voc pode enganar Jack Dacre, mas a mim no engana.
	No entender bem o ingls  Lorenzo brincou.   verdade,  verdade.
	Fui escolhida para ser a sua intrprete  Helen enfatizou, friamente, procurando manter o relacionamento dos dois em um plano de negcios.  Vamos discutir o programa para hoje?
	Por que no me leva para ver os pontos tursticos de Nova York?
	Sr. Martelli, sou uma mulher muito ocupada...
	Est certo.  Ele assumiu um ar resignado.  Pelo menos, valeu a tentativat. Bem, aqui est uma lista dos lugares que tenho que visitar. No vamos procurar nenhum outro hotel em Nova York, mas vrios restaurantes.
	Nenhum deles  um restaurante italiano  Helen comentou surpresa, enquanto estudava a lista.
	E claro que no. Esta  a ideia. No preciso convencer os italianos que os produtos Martelli so os melhores, mas estou em busca de novos mercados.
	Eu no devia nem ter perguntado...
	E verdade. Como boa siciliana, voc tambm sabe da qualidade Martelli.
	Lorenzo...
	Estou me referindo s nossas verduras  ele retrucou sorrindo.  Podemos ir agora?
Nas prximas horas, ela o observou trabalhando e teve de reconhecer que Lorenzo era competente. Sabia vender como ningum e conhecia tudo sobre marketing. A noitinha, j conseguira muitos pedidos e prometera fazer as entregas rapidamente.
Estou exausto  ele reconheceu finalmente.  Vamos entrar nesse restaurante e descansar um pouco.
O lugar que ele escolhera chamava-se Fives e tinha uma vista para o rio Hudson. Escurecera e as luzes refletiam-se nas guas do rio.
Helen, mesmo estando acostumada com a vista, percebeu que tudo parecia diferente naquela noite. Havia at uma lua enorme e romntica no cu estrelado.
Tinha de reconhecer que o dia fora muito agradvel. Estava surpresa em descobrir que Lorenzo era divertido e que trabalhar com ele no chegara a ser cansativo. Ultimamente, ela no reservava tempo algum para a diverso e bem que precisava relaxar um pouco.
	Sinto-me como se tivesse trabalhado uma semana inteira  Lorenzo observou suspirando.
	Posso afirmar a mesma coisa.
	No deveria ter feito voc trabalhar tanto, no ?
	E verdade, sr. Martelli. S devia ter traduzido para voc, no entanto nunca preenchi tanta papelada.
	No preciso de tradutor algum  ele reconheceu com ar inocente.
	Mas precisava de uma ajudante para anotar os pedidos, reconhea.
	Voc anota direitinho os pedidos. Agora vamos pass-los para o computador.  Ele tirou um laptop da pasta e estudou as anotaes que haviam feito.  No consigo entender a sua letra, Helen.
	Vou digit-los eu mesma  ela falou resignada.  Mas antes vamos comer, seno desmaio de fome.
O garom chegou com o menu e Lorenzo fez o pedido das bebidas.
	Este  um restaurante vegetariano. Justo o que eu preciso. Vamos fazer vrios pedidos e avaliar se podemos melhor-los com minhas verduras.  Lorenzo no conseguia perder a chance de mais um bom negcio.
Helen comeou a digitar as anotaes que fizera durante o dia e no percebeu que Lorenzo j escolhera o que iam comer, sem consult-la.
	Voc parece meu pai. Mulher no escolhe nada.
	No foi isso que pretendi. Simplesmente escolhi os pratos que quero provar para ver se arranjo mais negcios aqui.
	Nem na hora de comer voc deixa de pensar em suas verduras?
	A meta  fazer dinheiro  ele comentou com seriedade.  E falando em seu pai, acho que o entendo agora. Ele  muito apegado ao tradicional.
	Ele  um timo pai,  bondoso, trabalha pensando na famlia. Por outro lado, acha que tem o direito de tomar todas as decises e mamma termina concordando com ele. Mais ou menos como eu agora, quando voc escolheu o que vamos comer.
	Meu pai morreu quando eu tinha nove anos  Lorenzo comentou.  Nunca o vi falar com minha me do jeito que seu pai fala com mamma Luzia. Penso que nunca serei assim to mando.
	No vou me casar com voc. Lembra-se do que com binamos?
	Diga isso para o seu pai. Ele praticamente estava planejando qual seria o seu presente de casamento.
	Voc o procura e lhe conta a verdade. Afinal, voc  um homem que fala, enquanto as mulheres ficam em silncio.
	Quem, eu?  Ele tingiu estar preocupado que ela pensasse assim.
	Sim, voc. Reconhea. Afinal, voc  um homem ou um rato?
	 mais seguro ser um rato  ele respondeu brincando.
	Isso quer dizer que voc no vai contar a verdade para o meu pai.
	Estou desconfiado de que voc no quer se casar comigo, s para irritar seu pai.
	Pode at ser, mas no  a nica razo.
	Que alvio. Estou salvo.
	Coma sua salada  Helen sugeriu.  S quero ver que prato voc escolheu para mim.  Em seguida voltou a digitar os pedidos.
Tinha de reconhecer que Lorenzo no era o homem desprezvel que imaginara. Ela  que tinha essa mania de criticar os italianos. Lorenzo era simptico, srio quando trabalhava e sabia agradar as pessoas com seu jeito de menino.
Helen percebeu que comeava a gostar de Lorenzo Martelli.

CAPTULO III

O garom serviu o prato principal feijo com alcachofras. Estava delicioso e Helen teve de concordar que Lorenzo fizera uma boa escolha.
	Suas irms tambm se revoltam contra seus pais por eles serem to antiquados?  Lorenzo perguntou enquanto servia um copo de vinho para Helen.
	No, elas ainda so muito garotas. Eu  que quero trabalhar fora, levar uma vida mais independente. Sinto-me sufocada com essa histria de planejarem meu prprio casamento.
	E voc pretende convenc-los a aceitarem aquele seu namorado, o Erik?
	No  meu namorado. No quero me casar agora, nem tenho ningum em vista. Fico aborrecida porque meus pais resolveram me escolher um marido. Queria que entendessem que, se resolver me casar, quero eu mesma escolher o homem com quem irei passar minha vida inteira.
	Devem estar preocupados porque voc ainda no se casou. Os italianos acham que as mulheres devem se casar cedo...
	E sou obrigada a me casar? No posso escolher apenas uma vida profissional e ficar solteira?
	Voc no pode se casar e ao mesmo tempo seguir uma profisso?
	No se o meu marido for siciliano!  Helen exclamou, indignada.
	Ento, posso at me ajoelhar e pedi-la em casamento que voc vai recusar a minha proposta?
	Pode ter certeza que sim. Alm do mais, depois que sabe como sou, ainda teria algum desejo de que eu me tornasse sua esposa?
	 verdade. S falei por falar. No vou pedi-la em casamento, mas gostaria que fssemos amigos.
	Homens e mulheres no podem ser amigos  ela retrucou repetindo um chavo popular.
	Quem disse isso? Voc  muito inteligente para acreditar nessa bobagem.
	Meus pais vivem repetindo isso. Papai diz que lugar de mulher  na cozinha e mamma acha impossvel que um homem se contente s com amizade, porque s pensa naquilo...
	Vou provar a eles que esto errados. Homens e mulheres precisam ser amigos, porque somente assim um ajuda o outro e transformam suas vidas em algo muito melhor.
	Tambm acredito nisso. Mas l na Siclia...
	Concordo em parte com voc. Muita gente, na Siclia, pode pensar como seus pais pensam, mesmo assim esto errados. Vamos ser amigos e mostrar que essa amizade  possvel mesmo para dois sicilianos.
Helen percebeu que as pessoas que estavam sentadas na mesa ao lado estavam^sorrindo para ela e Lorenzo.
	Sabe o que esto pensando de ns?  ela perguntou.
	Claro. Pensam que estamos apaixonados. Por que um homem e uma mulher estariam de mos dadas e sorrindo um para o outro se no estivessem apaixonados?
	Se eu lhes contasse a nossa histria, no acreditariam.
	Tem razo. Nunca iriam imaginar que descobrimos a segunda coisa mais importante de nossas vidas, a amizade.
	Qual  a primeira?
	Bem, voc vai conhecer algum especial e se apaixonar... A mesma coisa vai acontecer comigo. Por enquanto, ser a amizade que enriquecer nossas vidas.
	Amigos, ento?
	Amigos.
	Por que voc ficou sem jeito, quando papai estranhou que voc tivesse dois irmos e no apenas um?
	Tenho um irmo filho do mesmo pai e me e um meio-irmo.
	Um de seus pais j tinha um filho quando se casaram?
	No exatamente  ele respondeu meio sem jeito.  Meu pai teve um caso com outra mulher e dessa aventura nasceu um filho. Ela se chamava Marta.
	E sua me sabia?
	Sempre soube. Prometeu ao meu pai, inclusive, que se ele morresse, ela cuidaria dessa sua outra famlia.
	No acredito?! Quer dizer que ficou amiga da outra mulher, quando seu pai morreu?
	No aconteceu assim. Papai e sua outra mulher morreram juntos em um acidente de carro. Minha me foi buscar o menino e criou Bernardo como se fosse seu filho.
	Sua me deve ser santa  Helen falou impressionada.
	Ela  maravilhosa.
	Coitada. Pelo que teve de passar!
	Mame no  uma coitada.  durona, mas bastante sensata.
	Se fosse norte-americana, divorciava-se, mas estava na Siclia. O que deve ter acontecido  que, sem querer brigar com o marido, aceitou sua infidelidade e tentou seguir a vida da melhor forma possvel. Deve ter ficado com o corao partido. Voc acha natural que ela aceitasse a infidelidade do marido?  Helen perguntou querendo ver a reao de Lorenzo.
	No acho. Voc viu que no tive coragem de contar essa histria na frente de suas irms, ontem  noite.
Helen percebeu que Lorenzo estava embaraado e ficou satisfeita em descobrir que ele no aceitara a traio do pai com tanta naturalidade.
	Fale-me desse seu meio-irmo. Ele vive com vocs?
	Podia, mas  ele que nos rejeita. Bernardo no aceitou o sobrenome Martelli e usa o de sua me. No o vemos muito. Ele mora em um vilarejo chamado Montedoro, despreza o dinheiro e nem aceitou sua parte da herana de meu pai. Recentemente se apaixonou por uma inglesa. Tudo ia bem e j estvamos esperando ele anunciar seu casamento, quando rompeu o namoro porque havia descoberto que a namorada era rica.
	E essa moa concordou com isso?
	Seu nome  Angie e ela  mdica. Ficou inconformada e resolveu clinicar em Montedoro. Arranjou uma casa perto da e Bernardo. Ele ficou chateado com isso, mas Angie no aceita a separao por um motivo to bobo e est tentando convencer meu irmo a aceit-la de volta.
	Angie parece ser uma tima pessoa.
	Voc gostaria dela se a conhecesse. Ela  loira, magrinha, nem parece inglesa. Quem a v, pensa que ela  fraca e se submete  vontade de todos, porm tem gnio forte e vai fazer Bernardo mudar de ideia.
	Como eles se conheceram? Ela estava visitando a Siclia?
	No, ela  amiga de Heather, a esposa de meu irmo Renato.  Lorenzo ficou meio inquieto, no querendo confessar  Helen que ele e Heather haviam namorado, mas que ela o trocara por seu irmo mais velho.
	A comida est boa, contudo podia ser melhor ainda se eles usassem as verduras Martelli. Acho que podemos arranjar um  fregus aqui.  Lorenzo mudou rapidamente de assunto, antes que Helen lhe fizesse alguma pergunta sobre sua cunhada.
Helen ficou observando Lorenzo falar de negcios. Ele sabia negociar com maestria. Depois, quando comeou a falar sobre a Siclia, sentiu o quanto ele gostava de sua terra. No era um playboy como lhe parecera a princpio. De repente, sentiu que estava fascinada corri a descrio que ele fazia da ilha e de seu povo.
	A Siclia faz parte de mim  Lorenzo confessou com entusiasmo.  Posso viajar bastante, mas sempre volto. Ns, sicilianos, somos assim. Voc ainda vai sentir a emoo de ser siciliana de origem.
Helen sorriu com simpatia e reconheceu que fora injusta com ele. Lorenzo era uma boa pessoa. Charmoso, bonito e bondoso... Qualidades que deveriam atrair as mulheres para o seu lado.
	Quanto tempo voc vai ficar em Nova York  perguntou.
	S mais alguns dias. Tenho que viajar para Boston, Filadlfia, Detroit, Chicago e Pittsburgh. No d para visitar os Estados Unidos inteiro em uma s viagem. Volto para a Siclia, fao meus relatrios para Renato e, se tudo sair como estou planejando, retorno novamente para Nova York.
	Seu irmo Renato  quem manda nos negcios?
	Ele assumiu o posto de chefia, quando papai morreu.  um pouco patriarcal. Mas acredito que  a nica forma de fazer uma empresa familiar prosperar.
	Renato deve ter orgulho de voc!  ela exclamou.  Voc adora seu trabalho e isso faz os negcios flurem melhor. E agora, quer ver Nova York  noite?
	Que horas so?  ele consultou o relgio.  Nove horas? No, no vai dar?  ainda cedo em Palermo. Renato vai me matar, porque ainda no lhe telefonei. Tenho de voltar ao hotel, mas quero agradecer o trabalho que teve comigo. Quem sabe podemos nos despedir amanh, antes que eu parta para Boston?
	Podemos sim. Vou ficar contente em v-lo de novo  Helen afirmou sinceramente.
	Vamos nos encontrar no hotel, est bem assim?
Helen s viu Lorenzo mais uma vez antes de sua partida para Boston e apenas conversaram rapidamente. Quando voltou da Filadlfia, Lorenzo levou-a jantar com os pais dela, comportando-se como um candidato a noivo. Helen teve de se esforar muito para no rir, caso contrrio surpreenderia os pais e teria de responder perguntas embaraosas.
Nos dois meses seguintes, mantiveram contato pela Internet. Helen estava no fim do estgio, passava muito tempo estudando e Erik se oferecera para ensinar tudo o que sabia sobre hotelaria. Quando tinha um tempinho livre, corria no computador e passava uma mensagem eletrnica para Lorenzo.
Ele respondia, sem contar a data em que regressaria para Nova York.
	Vamos sair para tomar alguma coisa?  Erik perguntou, depois que tinham trabalhado o dia inteiro sem parar.
	Claro  Helen concordou imediatamente e s ento percebeu que algum se aproximara dela discretamente.
	Boa tarde para vocs dois  Lorenzo interrompeu-os.
	Que bom v-lo de novo!  Erik exclamou bastante satisfeito em ver Lorenzo de volta.  Todos aqui esto adorando os produtos Martelli. Eles foram entregues na data certa.
	Era isso exatamente o que eu queria ouvir, antes de voltar para a Itlia.
	Helen e eu estvamos saindo para um barzinho. Por que voc no deixa as malas no quarto e vai conosco at o Empire Bar?
	timo. Esperem-me, prometo no demorar.
Quando Lorenzo voltou, Helen estava sozinha.
	Erik recebeu um chamado, mas me recomendou que o distrasse  falou secamente. Estava meio aborrecida, porque havia vrios dias que Lorenzo no lhe mandava mensagem alguma.
	Em vez de irmos ao bar, podemos jantar no restaurante do hotel e assim o chef pode comentar sobre suas verduras e fazer novos pedidos  Helen acrescentou, decidida a no se mostrar eufrica.
	Nada disso. Pegue seu casaco, Helen.
	O qu?
	Vamos a algum outro lugar. Vim para falar com voc, no com o chef.
	Mas os novos pedidos...
	Podem esperar at amanh.
Escolheram um pequeno bar com vista para o rio. Helen percebeu que sentira falta de Lorenzo e comeou a se preocupar com a volta dele para a Itlia. Iriam ficar muito longe um do outro.
	Voc tem levado Erik para a casa de seus pais?  Lorenzo perguntou interessado.  Seus pais esto aborrecidos com voc, porque no estamos juntos?
	Um pouco. Outro dia levei mamma para fazer compras e encontramos Erik quando fomos ao Elroy tomar ch. Quando ele se despediu e voltou ao trabalho, inventei uma histria para minha me, dizendo que no sabia quem escolher para noivo e que estava indecisa entre voc e Erik. Ela ficou brava comigo, dizendo que eu estava fazendo sofrer aquele pobre rapaz italiano. Da para frente, ela sempre o chama assim.
	Voc no falou mal de mim?
	Mamma jamais aceitaria que eu o criticasse.
	Ento, quando voc anunciar seu noivado com o Erik, ela vai estar mais preparada.
	No sei se vou ficar noiva do Erik. 
	Mas estavam juntos e pareciam estar se dando bem  Lorenzo retrucou.
	Ele estava me explicando um assunto referente ao nosso trabalho. No estvamos falando nada pessoal.
	Erik deve ter certeza de que voc gosta dele, seno no teria deixado a namorada sair sozinha com outro rapaz.
	Ele sabe que voc e eu somos apenas amigos. Depois, j lhe disse. No tenho qualquer relacionamento mais srio com Erik. Gosto dele, mas isso  tudo.
	Helen, voc parece cansada. Qual o problema?
	Ando estudando muito para os exames.
	Que exames?
	O Elroy decidiu aplicar uma prova de seleo do pessoal Quem se sair melhor, ganha vaga para os melhores postos. Quero conseguir uma delas.
	Sossegue, Helen. Voc vai se sair muito bem no exame. Tenho tentado me preparar bem, mas estou com medo. Afinal, estou decidindo um caminho para a minha vida. 
	, voc j me disse que quer uma carreira em vez de compromisso amoroso. Quero alert-la para um detalhe: s vezes, pensamos estar fazendo uma boa escolha e s depois percebemos que no era a melhor opo.
	Tem razo. Sinto-me, s vezes, em um labirinto sem sada. Mas sempre h uma, voc sabe.
	E muitas vezes ela est bem diante de ns, todo o tempo.
	O que voc est tentando me dizer?  Helen quis saber.
	Calma, calma. No estou fazendo uma proposta de casamento. S acho que voc decidiu contrariar seus pais e seguir um caminho diferente do que eles planejaram para voc. Desse jeito, vai terminar se sentindo meio perdida.
	Quer saber? Sinto-me solitria  Helen confessou sinceramente.
	Amanh no estar. Vamos estar juntos.
	No posso. Joanne, minha colega de apartamento, vai sair e poderei estudar melhor com o apartamento em silncio. Nem sempre consigo estudar com ela conversando o tempo todo.
	Pois vou ao seu apartamento, preparo o jantar, ponho a mesa, depois lavo os pratos. Prometo que no vou atrapalhar os seus estudos, e voc vai provar a melhor comida do mundo.
	Quero ver esse siciliano lavando pratos.  Helen estava com um ar de dvida.
Na noite seguinte, tudo saiu como ele havia prometido. Saindo do Elroy, Helen encontrou Lorenzo na porta, esperando por ela e carregando uma sacola de mantimentos.
	Pode fazer o que quiser e deixe a comida por minha conta  Lorenzo foi falando, mal entraram no apartamento. Tirou a jaqueta que usava e arregaou as mangas da camisa.
Antes de comear a fazer a comida, preparou um caf e levou uma xcara para Helen. Depois, trabalhou to silenciosamente, que nem parecia que havia mais algum no apartamento.
Quando finalmente ela provou a comida, ficou surpresa. Era a melhor carne que ela comera at ento.
	Onde voc arranjou esta carne?  perguntou curiosa.
	Fui a uma das lojas de seu pai e perguntei a ele o que voc mais gostava de comer. Nicolo Angolini elogiou voc e recomendou que eu preparasse a carne do jeito que ele fazia, quando voc era criana. Ele me deu a receita e at que no me sa mal, no ?
	Faz tempo que^papai no me prepara esse prato  Helen comentou, surpresa que o pai se lembrasse to bem da receita.
Lorenzo foi buscar a sobremesa e nova surpresa. Eram pssegos ao vinho e creme. Helen estava realmente satisfeita.
	Voc encontrou minha me?  Helen perguntou-lhe.
	Seu pai me mandou subir e pedir uns conselhos a ela. Parece que sua me contou ao seu pai que voc andava saindo com o Erik para despertar cime em mim. Seu pai me aconselhou a no ficar implorando sua ateno, porque voc podia ficar muito convencida. No era para eu ficar rastejando atrs de voc. Sua me mandou ele parar de falar bobagens.
	Ela falou isso para o papai? No acredito.
	 diferente quando os filhos no esto em volta, Helen. Ele tenta ser o chefe e fica dando ordens, mas quando est sozinho com a mulher, ouve seus conselhos.
Helen no estava de todo convencida de que isso era verdade. Quando terminaram de comer, quis ajud-lo a lavar os pratos, mas Lorenzo mandou-a voltar aos estudos.
	No posso deix-lo fazer tudo  Helen reclamou.  Depois, no fica bem um empresrio italiano lavar pratos. Como fica sua reputao de mando?
	Sou um homem simples, Helen. Todos mandam em mim 	brincou.  Minha me manda em mim, meu irmo tambm e agora at minha cunhada me d ordens.
Helen quase engasgou de tanto rir, adorando v-lo assim to divertido.
	No era para ficar rindo de mim  Lorenzo reclamou, fingindo estar ofendido.
	No consegui me controlar. Voc  um amor  ela elogiou e, sem pensar duas vezes, abraou-o carinhosamente.
Ficaram abraados por um bom tempo. Helen nunca se sentira to segura, to calma.
De repente, ele a sacudiu reclamando que ela estava praticamente dormindo encostada nele.
	Desculpe-me.  que estou cansadssima e depois, senti-me to segura em seus braos, que relaxei.
	Quer dizer que meu abrao a faz dormir? Isso  praticamente um insulto.  Lorenzo estava brincando com ela.  E agora, volte aos estudos que vou lhe levar um caf forte para mant-la acordada.
Helen seguiu para o sof e tentou estudar, mas seus olhos estavam pesados. Quando acordou,, viu que quem estava ao seu lado era Joanne.
	O que voc est fazendo no sof, s duas horas da manh? 	a amiga perguntou surpresa.
Helen olhou em volta e percebeu que Lorenzo havia sado sem acord-la. Foi at a cozinha e encontrou tudo limpo. Ele no s lavara tudo, como guardara as panelas e a loua no armrio. Deixara um recado pregado na geladeira:
Voc estava dormindo como uni beb, ento no quis acord-la. Durma bem.
Helen sorriu, pensando no carinho que estava recebendo do amigo. De repente, algo lhe passou pela cabea. Era produto de sua imaginao ou ele beijara seus lbios antes de sair?

CAPTULO IV

No dia em que Lorenzo ia voltar para a Itlia, Helen o acompanhou at um dos restaurantes que desejava fazer mais alguns pedidos dos produtos Martelli.
Durante o almoo, comeram em silncio, cada um com seus prprios pensamentos. Depois, caminharam pelo Central Park de mos dadas. O inverno terminara e as rvores comeavam a florir.
Helen sentiu o corao pesado, dominada por uma sensao de perda. Ficara amiga de Lorenzo e agora se entristecia s de pensar que no o veria por um bom tempo. Isso, se ele retornasse a Nova York/claro. Podia acontecer de ele decidir no voltar mais aos Estados Unidos. Helen perturbava-se s de pensar nisso.
Procurava se convencer de que apenas gostava dele como amiga. No fundo, tinha medo de tentar analisar melhor seus sentimentos.
	Acho que est na hora de irmos para o aeroporto  Lorenzo disse finalmente.
Um txi os levou at o aeroporto. Helen ficou observando Lorenzo, enquanto ele apresentava as malas no balco de embarque.
	Ainda d tempo para tomarmos alguma coisa. Vamos?  Lorenzo perguntou segurando sua mo. Estava srio, como se algo o estivesse preocupando.
Escolheram um barzinho, arranjaram um lugar e se sentaram, sorrindo um para o outro, cada qual procurando dizer a palavra certa.
	Voc no se esqueceu de nada?  Helen indagou, enquanto tomava seu suco de laranja.
	Sei l. Tenho o mais importante que  o passaporte e a passagem.
Ficaram novamente em silncio.
	O tempo est bem melhor agora do que quando voc chegou.  Helen procurava manter uma conversa banal, no querendo que ele percebesse o quanto estava nervosa com sua partida.
	Na Siclia  primavera. Todas as flores desabrocham e a ilha fica maravilhosa  ele comentou.
Lorenzo tambm no queria dizer o que realmente passava por sua cabea, que era a falta que sentiria de Helen.
	Voc est contente por voltar  Siclia, no?
	Estou com saudade de minha famlia, mas tenho de admitir que me diverti muito aqui nos Estados Unidos.
	Tambm gostei do tempo que passamos juntos.
	Voc vai ter problemas com sua famlia, porque estou indo embora sem termos oficializado nosso noivado?
	Vou lhes dizer que estamos em dvida quanto aos nossos sentimentos. E, afinal, o que eles podem fazer? Pode ficar sossegado que no jogarei a culpa do rompimento em voc.
	Detestaria que eles ficassem bravos com voc.
	No vou ter tempo de ficar muito na casa de meus pais. Terei muitas atividades no hotel. Vou trabalhar ao lado de Erik, agora. No se preocupe, vou ficar bem.
Helen se surpreendeu com o olhar de preocupao de Lorenzo. Bastava ela falar em Erik, que ele parecia meio aborrecido, apesar de no comentar nada.
	Est chegando a hora de embarque. Estaro chamando em menos de dez minutos.
	Helen, estou feliz que voc esteja comandando a sua vida e se saindo bem no trabalho.
	Graas a voc. Ficaram impressionados com os elogios que voc fez de mim l no Elroy.
	Se voc vai se encontrar com Erik, pode ir, Helen. No v se atrasar por minha culpa.
	Vou esperar o chamado de embarque, porm no vou poder esperar o avio decolar.
	O que Erik acha de voc ficar saindo comigo?  Lorenzo perguntou, aparentando curiosidade.
	Ele est contente, porque acha que todos fizeram bons negcios com voc, graas a minha participao como intrprete.
	Isso  tudo o que ele disse a respeito de ns dois?
	Sim, por qu?
	Se voc fosse minha namorada e estivesse saindo com outro homem... Bem, no estaria to calmo. Est certo.  bom que ele ser assim to sensato.
	Lorenzo, j lhe disse tantas vezes que no namoro o Erik. Voc no acredita em mim?
	Se voc garante isso...
O tempo estava passando. Agora faltavam menos de cinco minutos para estarem juntos. Helen tinha de revelar a Lorenzo o que estava sentindo, antes que fosse tarde.
	Vou lhe escrever pela Internet. Est bem assim?
	Tambm vou. Telefono tambm  ele prometeu.  No se esquea de que somos amigos.
	No deixe de me contar se chegou bem da viagem  ela pediu com voz trmula.
Naquele momento, o alto-falante chamou os passageiros do vo Nova York-Roma. Chegara a hora da separao.
	Bem, adeus Elefta  ele sorriu provocando-a.
Ela fingiu estar brava e ameaou-o com o punho fechado. Lorenzo riu e beijou-lhe a mo com carinho.
	Vou sentir sua falta, Helen.
	Tambm vou  murmurou assustada com o fato de que ele estava mesmo partindo e ela ficaria ali sozinha.
Lorenzo abaixou-se e beijou seu rosto, antes de pegar sua mala de mo e seguir para a porta de embarque. No se voltou para lhe acenar, apenas sumiu de sua vista.
Helen sentiu-se completamente desolada. Voltou ao barzinho e pediu um caf, mas no o tomou. Limitou-se a ficar olhando para o lugar onde Lorenzo estivera momentos atrs. Quando percebeu que o caf estava frio, pediu outro. Depois se levantou e foi ver o avio decolar, apesar de ter dito a Lorenzo que no esperaria a partida.
O enorme avio manobrou na pista, depois os motores roncaram e ele decolou. Quando as ltimas luzinhas da aeronave sumiram no cu, Helen sentiu a vista nublada. Parecia que estava chovendo e ela demorou para compreender que eram as lgrimas que molhavam seu rosto.
Foi longa a viagem de Nova York at Roma. Quando o avio aterrissou, Lorenzo estava exausto. No dormira nada durante o vo. Mesmo assim, pegou imediatamente o vo de conexo Roma-Palermo. Chegou na Siclia feliz por estar em casa novamente, mas ao mesmo tempo sentindo que tudo estaria perfeito se algum estivesse ao seu lado. J estava sentindo saudade de Helen.
Renato e Heather estavam esperando por ele no aeroporto contentes com o seu regresso. Em casa, mamma Antonieta abriu os braos e o envolveu amorosamente, como se ele tivesse passado muito mais tempo do que realmente passara longe dela.
Victor Bragatto, um apaixonado que sua me tivera quando mocinha, estava tambm na casa. Nos ltimos tempos, por sinal, ele no fazia outra coisa a no ser acompanhar a me de Lorenzo, onde quer que ela fosse.
	Voc se saiu muito bem nos negcios  Renato elogiou, entusiasmado.  Os pedidos no param de chegar. Vamos ter um lucro enorme.
	Voc tem alguma coisa especial para nos contar?  mamma Antonieta perguntou sem se conter.  Queremos saber sobre Elena.
	Mamma, no aconteceu nada de importante, eu juro. Helen e eu somos apenas amigos.
	Como pode falar uma coisa dessas. Vocs se beijaram na primeira noite em que foram jantar na casa dos Angolini. Depois passaram juntos todo o tempo que voc esteve na Amrica e agora vem me dizer que so apenas bons amigos? Pensa que  um artista e est dando uma entrevista para algum reprter?
	Foi um beijo de amizade, mamma. Depois, passamos muito tempo juntos a trabalho. Ela me ajudou com os pedidos dos restaurantes. No aconteceu nada de srio entre ns dois.
	No  o que mamma Luzia me contou ao telefone.
	Virgem Maria! Helen estava certa. "Hoje Nova York, amanh o mundo!"
	E quem  essa Helen?
	 o nome que Elena prefere usar, j que nasceu nos Estados Unidos. Mamma, podemos falar disso mais tarde. Acabei de chegar e estou feliz por reencontrar minha famlia. Onde est Bernardo? E Angie?  Lorenzo conseguiu escapar da me, apesar de sentir o olhar dela garantindo que iria voltar quele assunto em outra oportunidade.
Bernardo, seu meio-irmo no estava presente. Continuava vivendo longe da famlia e recusando a herana que seu pai lhe deixara. Pior ainda, continuava insistindo em afastar Angie, a mdica por quem estava apaixonado, s porque ela tambm tinha dinheiro. Bernardo era orgulhoso demais, pensou Lorenzo.
	Mamma, pensei que Bernardo tinha feito as pazes com Angie. Lembra-se de que no dia de seu aniversrio, eles saram juntos?
	E parece que passaram a noite juntos. Ficamos com esperana que tudo se resolveria, mas continuam separados...  Heather entrou na conversa, inconformada que a amiga Angie estivesse sofrendo por amor.
Mais tarde, quando estava sozinho, Lorenzo pegou seu laptop e passou uma mensagem eletrnica para Helen. Era para ser uma mensagem curta, porm ele se entusiasmou e falou sobre sua viagem, sobre a chegada, a recepo da famlia e at do problema de seu meio-irmo.
Depois, ficou preocupado por ter entrado em assuntos to ntimos. Ser que Helen se interessava mesmo por sua famlia? Antes de mudar de ideia e apagar a mensagem, enviou-a rapidamente.
No dia seguinte, j havia uma mensagem esperando por ele. Helen escrevera dizendo que ficara com pena da tal mdica que gostava de Bernardo e de como era bobagem ele ficar dando tanta importncia ao dinheiro. Se havia amor, deviam ficar juntos, claro.
Lorenzo pensava do mesmo jeito. Logo que teve um dia livre, conseguiu escapar de Renato e foi para Montedoro procurar Angie no hospital.
Ela acabara de fazer uma cirurgia e estava pronta para voltar para casa. Angie era bonita, bem loira, com jeito mesmo de inglesa. Bernardo percebeu que ela estava cansada e tambm triste, mesmo assim insistiu para que ele fosse jantar em sua casa.
	Quero saber tudo sobre sua viagem  Amrica  Angie disse, satisfeita com a visita do Lorenzo.
Ele tinha muito que contar sobre a viagem, mas tudo o que podia pensar era em Helen e, enquanto se lembrava dela, no conseguiu evitar de sorrir sonhadoramente.
	Qual  o nome dela?  Angie perguntou rindo.
	Por que vocs mulheres sempre acham que sabem ler nossos pensamentos? Conheci mesmo uma moa nos Estados Unidos, filha de uma famlia amiga. Seu nome  Helen e, antes que voc comece a escutar sinos de casamento, saiba que ela no quer nem pensar em se casar comigo. A famlia quer, mas ela mal me conheceu j me disse que se casar com um Martelli estava fora de cogitao.
	Voc props casamento para ela, logo que a conheceu?
	Ela no esperou pelo pedido e foi se antecipando.
	No acredito que voc conheceu uma mulher que  imune ao seu charme, Lorenzo.
	Pois foi isso exatamente o que aconteceu.
	J estou gostando dessa moa  Angie foi logo dizendo, sem saber que Helen dissera o mesmo sobre ela.  No me deixe curiosa. Vamos, conte-me tudo nos mnimos detalhes.
Lorenzo ia comear a falar sobre'Helen, quando percebeu que Angie ficara muito plida. De repente, ela derrubou o garfo no cho.
	Voc est sentindo alguma coisa?  perguntou ansioso.
	Estou meio tonta. Deve ser porque no me alimentei o dia inteiro e tive muitas cirurgias.
Lorenzo teve que ser rpido e segur-la, porque ela estava prestes a desmaiar.
	Venha deitar-se e deixe que eu arrumo a cozinha para voc. Melhor tirar o dia de folga amanh, se for possvel.
Lorenzo saiu preocupado da casa de Angie. Aquele desmaio parecia significar uma coisa bem sria. Decidiu procurar Bernardo imediatamente. Encontrou o irmo e no fingiu estar em uma visita social.
	Bernardo, vou falar algumas verdades, mesmo que voc fique aborrecido comigo.
	Se o assunto for meu romance com Angie, esquea.
	Sou seu irmo e no vou deix-lo estragar sua vida por besteira  Lorenzo retrucou duramente.  Voc tem uma mulher maravilhosa que o ama e est correndo o risco de perd-la. Voc no gosta dela?  perguntou irritado.
	O problema no  gostar ou deixar de gostar. No quero ser um homem sustentado pela mulher rica.
	Essa sua mania de pensar em dinheiro s atrapalha sua vida. O importante  que Angie o ama, seu dinheiro  coisa secundria. Depois, voc tem seu prprio dinheiro. Aceite a herana que papai lhe deixou e trabalhe conosco.
Bernardo ficou pensativo. Gostava dos irmos e talvez estivesse sendo orgulhoso demais. No queria reconhecer isso, mas estava sofrendo sem Angie.
	Voc sabia que ela quase desmaiou hoje?  Lorenzo perguntou.  Acho que est doente e  melhor voc dar uma olhadinha no que ela tem. Ningum desmaia sem motivo.  Desconfiava do que a mdica tinha, no entanto, era melhor o irmo descobrir por conta prpria.
Quando deixou a casa de Bernardo, o irmo no chegara a lhe fazer promessa alguma nem de se reunir  famlia Martelli nem de procurar Angie. Lorenzo estava satisfeito consigo mesmo. Tinha sido sincero e falado o que lhe viera do fundo do corao.
No caminho de casa, freou o carro bruscamente, porque pensou ter visto Helen perto de umas rvores  beira da estrada. Tudo fora fruto de sua imaginao, concluiu ao ver que no havia moa alguma parada ali.
Observou que havia rvores floridas bem parecidas com as do Central Park. Devia ser por isso que pensara t-la visto. No podia estar sentindo tanto a sua falta a ponto de ter vises.
O que Helen estaria fazendo naquele momento? Talvez preenchendo alguns papis, talvez at conversando com Erik. Naquela noite iria lhe passar uma mensagem eletrnica, contando sobre Bernardo e Angie e sobre suas suspeitas de que a mdica estivesse grvida.
No dia seguinte, recebeu a resposta de Helen com um fato surpreendente. Ela estivera passeando no Central Park e, por um momento, pensara t-lo visto.
Lorenzo arrepiou-se ao ler a mensagem. Helen tambm tivera uma viso, assim como ele. Claro que estavam se lembrando um do outro. Deveria lhe contar que tambm pensara t-la visto ali na Siclia?
Podia lhe enviar outra mensagem pela Internet, porm ficou com vontade de ouvir a voz de Helen. Discou o nmero do telefone de Helen e quem atendeu foi um homem. Erik, com certeza. Lorenzo desligou sem falar nada, mas estava arrasado.
Erik estava no apartamento dela e devia ser perto de meia-noite em Nova York. Teriam ficado noivos? Ele deveria ficar contente com a felicidade da amiga, no entanto estava sentindo que errara em no ter confessado a Helen o quanto gostava dela.
Da a pouco seu computador deu sinal de que recebera uma mensagem. Era de Helen, contando que naquela noite algum lhe tinha telefonado e desligado ao ouvir a voz de Erik que atendera o telefone. Acreditava que fora sua me, porque mam-ma Antonieta ligara novamente e desta vez se identificara. Devia ter ficado chocada por descobrir que Erik frequentava o apartamento da filha.
Assim os dias foram passando.
Lorenzo em uma das mensagens, contou a Helen que Bernardo voltara a se dar bem com a famlia e at pedira Angie em casamento. S que fora ela que o mandara embora desta vez. O fato  que estava grvida e achava que ele queria se casar por causa o filho que ia nascer.
A resposta de Helen enfatizava que, se a razo de Bernardo pedir Angie em casamento fosse o beb, ele deveria ser posto em leo quente.
Lorenzo acabou rindo. Esta era com certeza a Helen que ele mais admirava. Como ela ia prestar exames no dia seguinte, resolveu lhe enviar flores. Telefonou para uma florista em Nova York, escolheu rosas vermelhas e mandou que escrevessem no carto: Com amor e os melhores votos de sucesso nos exames.
To logo desligou o telefone, entrou em pnico. No podia falar em amor com Helen.
Ligou de novo para a floricultura, perguntou se tinha ainda tempo de mudar a encomenda e mandou que substitussem as rosas vermelhas por amarelas e tirassem a palavra amor do carto. Dez minutos depois, achou que no devia mandar rosa alguma, porque era uma flor de namorados. A florista sugeriu que ele escolhesse um ursinho de pelcia. Lorenzo aprovou a ideia.
A noite, Helen lhe telefonou para agradecer o presente.
	Ento ele chegou?  Lorenzo perguntou, pensando no ursinho.  Na verdade, eu pretendia mandar-lhe flores. Mas como sei que elas so frgeis e murcham logo, preferi o ursinho... Afinal, ele no morre e a cada vez que voc v-lo vai pensar emmim.
	 verdade  concordou Helen.
	Voc recebeu rosas de mais algum?
	Erik me enviou rosas vermelhas, mas como voc disse, elas morrero.
	Tenho certeza de que as flores dele so lindas  Lorenzo disse, tentando descobrir se ela assumira algum compromisso com Erik.
	Maravilhosas e compradas na floricultura do hotel, onde ele conseguiu um enorme desconto. Prefiro Gigi.
	Quem  Gigi?
	Eu no poderia dar o nome de Lorenzo para meu urso, podia? Escolhi o apelido que voc tinha quando criana. Lembra-se de que me contou que seu segundo nome  Luigi, ou Gigi, como sua me o chamava?
	Bem, Lorenzo no  mesmo um nome apropriado para um urso. De qualquer forma, boa sorte nos exames. Ligue-me logo que terminar as provas.
Quando pousou o fone no gancho, Helen olhou todas as flores que recebera naquele dia: rosas vermelhas, rosas amarelas e o urso. Sobre a mesa, os trs cartes de Lorenzo, um deles falando de amor.
Helen passou trs dias prestando os exames. Houve prova terica e prtica e ela foi bem no primeiro dia, mas ficou apreensiva com a prova que faria em seguida. Resolveu levar o urso Gigi para lhe dar sorte. Podia ser superstio, porm o urso virou um talism e ela no o tirou mais da bolsa.
	Gostaria de lev-la para jantar no Blue Moon  Erik a convidou, logo que ela terminou a prova.
	Mas esse restaurante no  carssimo?  Helen perguntou, porque no queria que Erik gastasse uma fortuna com ela.
	A ocasio  especial e no importa o que ela custe. Erik sorriu.  Temos que conversar uma coisa bem sria.
Helen ficou preocupada. Erik certamente a pediria em casamento, por isso escolhera lev-la a um restaurante to caro. Tambm falara em conversa sria? E agora? Como ela iria lhe contar que s pensava em Lorenzo? Ela no conseguia deixar de pensar nos olhos azuis daquele siciliano que a estava levando a perder o bom senso.
Escreveu uma mensagem eletrnica Lorenzo contando as novidades.
Ele respondeu, logo que leu a notcia.
	Erik vai lev-la ao Blue Moon? Deve estar com segundas intenes  deduziu.
	Ele disse apenas que quer conversar comigo  ela lhe respondeu, no de todo convencida do que falava.
	Aposto que ficar noiva dele em poucos dias? Ser que seus pais vo aceitar um genro norte-americano?  Lorenzo tentava aparentar calma, mas estava muito ansioso com o relacionamento entre Helen e Erik.
	Isso  bobagem. Pare de achar que tenho de me casar, Lorenzo.  A resposta de Helen lhe "deu alguma esperana.
Apesar de tentar se convencer de que Erik queria apenas premi-la por ter se esforado nos exames, Helen estava preocupada. Gostava dele, no entanto percebia que no estava aguentando a saudade que sentia de Lorenzo.
Na noite do jantar, Helen escolheu um vestido que lhe ficava muito bem. No estava muito animada com o encontro, mas queria arrumar-se direito, j que ia em um lugar to chique. Erik chegou trazendo flores e, quando j estavam no restaurante, entregou a ela uma caixinha preta, com a etiqueta Car-tier pregada nela.
	Abra-a  ele pediu.
Helen no sabia como recusar o presente, sem magoar Erik.
	No posso aceit-lo  murmurou.
	Quero que voc fique com meu presente por vrias razes, minha amiga. Primeiro, porque estou feliz por voc ter ido to bem nos exames. Em poucos dias, receber o resultado e saber que conseguiu a vaga. Vamos trabalhar juntos. E tenho que lhe confessar algo que talvez voc j desconfie.
Ele segurou suas mos, enquanto lhe fazia confidncias.
	Gosto de voc como amiga, mas sou gay. Ningum sabe disso. Gostaria de saber se esse fato atrapalhar nossa amizade.
Helen estava totalmente surpresa. Nunca desconfiara de nada.
	Os tempos mudaram, Erik. Fico feliz por voc ter me contado a verdade e estou orgulhosa de ser sua amiga  disse com sinceridade.
Erik respirou aliviado. Tinha tirado um peso das costas. Helen no parecia estar sofrendo uma desiluso amorosa e, ao contrrio, parecia feliz em saber o seu segredo.
Mais tarde, quando chegou no seu apartamento, Helen ligou o computador e entrou na Internet. Precisava conversar com Lorenzo.
	Vocs ficaram noivos?  Lorenzo perguntou ansioso, ao responder a mensagem eletrnica que recebera de Helen.
	Nada disso  respondeu ela em nova mensagem.
	Mas e o restaurante caro, o presente de ouro e a conversa sria? O que aconteceu? i Lorenzo queria saber como fora o encontro nos mnimos detalhes.
	Um dia vou lhe contar e voc ficar surpreso. Vai ter de esperar para quando voc voltar a Nova York  Helen escreveu, sabendo que Lorenzo era curioso por natureza.
Ele resolveu no insistir, acreditando que ela terminaria no aguentando e. lhe diria tudo.
Depois de conversarem via e-mail por uma semana Lorenzo compreendeu, frustrado, que s saberia o que acontecera no dia do tal jantar, quando Helen quisesse contar...
Ah! Mulheres!
CAPITULO V

Lorenzo enviou mais um ursinho de pelcia para Helen, logo que soube que ela passara nos exames. Ela agradeceu em mensagem eletrnica, depois se envolveu no trabalho e a correspondncia entre os dois pela Internet deu uma certa parada.
Foi ele quem retomou as mensagens, dessa vez com uma grande novidade. Seu irmo Bernardo conseguira convencer Angie a aceit-lo de volta e o casamento at j fora celebrado. Mamma Antonieta aconselhara a mdica a aceitar Bernardo, mesmo com todos os seus defeitos, no s porque gostava dele, mas porque estava grvida. Afinal, ia dar uma de mulher moderna e criar o filho sozinha?
Lorenzo escreveu na mensagem que acreditava que agora que o irmo se casara e ia ter ser pai, deixaria de ser to orgulhoso, procuraria esquecer as mgoas do passado e aceitaria a famlia que o acolhera. Podia ser uma mudana e tanto na vida de Bernardo.
Helen respondeu que apostava que os homens da famlia Martelli haviam sequestrado Angie e a forado a se casar. Estava brincando, claro...
Lorenzo lhe assegurou que todos adoravam a mdica e estavam felizes s de pensar que logo teriam dois bebs na casa, o filho de Renato e Heather e agora o de Benardo e Angie.
Lorenzo desistiu do computador e telefonou para Helen. Queria conversar com ela, ouvindo sua voz.
 Angie podia ter o filho e cria 10 sozinha, no ?  Helen queria deixar bem claro que achava que uma mulher independente podia criar um filho sem ter de se casar. Claro que mamma Antonieta pensava diferente.
	No aqui na Siclia - Lorenzi respondeu com sinceridade.
	Martelli, voc tem sorte de estarmos bem longe um do outro, seno voc ia se ver com essa histria de sicilianos.
	Eu sei  retrucou Lorenzo, pensando em como seria bom se estivessem juntos e no separados por um oceano. Quem sabe estragaria a amizade, se fizesse o que tinha vontade de fazer naquele momento.
Lorenzo sentiu uma vontade enorme de abraar Helen. E pensar que fora justo ele a dizer que homem e mulher podiam ser apenas amigos!
	Lorenzo, voc ainda est a?  Helen perguntou ansiosa.
	Claro que estou.
	 que voc ficou to quieto de repente.
	Estava apenas pensando.
	Sobre o qu?
	Gostaria de que estivssemos juntos e que voc tivesse assistido tambm ao casamento.
	 mesmo?
	Queria v-la em minha casa, conhecendo minha famlia, especialmente a minha me. Aposto que voc deixaria de lado alguns de seus preconceitos sobre as mes.
	Duvido que eu mudasse. Voc teve sorte de escapar de Nova York sem ter assumido compromisso algum. Se voltar, no garanto que consiga se sair to bem junto com mame.
	Bem, como voc vai indo no trabalho?  Lorenzo queria ouvi-la falar sobre Erik e, quem sabe, descobrir o que acontecera no jantar da outra noite. 
	Tenho trabalhado demais, mas gosto do que fao.
	E Erik?
	Viajando no momento.
Lorenzo respirou aliviado. Pelo menos, Erik no estava com ela no apartamento.
	Deve ser tarde a em Nova York. Eu a acordei com o telefonema?
	J  noite na Siclia? Voc no devia estar dormindo?
	Estou com uma garota dormindo aqui ao meu lado  Lorenzo brincou.
	No acredito  ela comentou meio indecisa.  Voc no  o cnico a esse ponto.
	Est bem, amiga. Inventei a namorada, mas valeu a tentativa de deix-la com cime  Lorenzo confessou.
Desligaram o telefone e ele foi para a cama. Achou que ia conseguir dormir imediatamente, porque estava cansado aps a cerimnia de casamento do seu irmo.
O sono no veio e ele ficou no escuro pensando no que gostaria de ter falado para Helen e no dissera.
A festa do casamento de Angie e Bernardo fora linda. Lo-renzo danara a noite toda com as garotas mais bonitas de Palermo. No se interessava por nenhuma em particular, mas tinha de manter sua fama de conquistador.
Tivera uma surpresa tambm naquela noite. Sua me decidira se casar de novo. Lorenzo ficara feliz, porque mamma certamente iria ser feliz com Victor Bragatto, um apaixonado seu desde o tempo de garota. De repente, todos estavam fazendo planos para esse novo casamento e ficavam olhando para Lorenzo querendo que ele seguisse a maioria. Agora s faltava ele se casar, tambm.
	Nem pensem nisso. Vou me casar s daqui uns dez anos  respondia alarmado, quando lhe sugeriam a ideia.
Ningum acreditara nessa histria de "s daqui a dez anos" e riram na frente dele sem acanhamento algum.
Mamma Antonieta andava sempre falando ao telefone com mamma Luzia e no haviam deixado de lado suas esperanas de casar Helen e Lorenzo.
Ele prprio tinha de admitir que quando pensava em casamento, via o rosto de Helen. Ela, porm, ho queria nada com ele e deixara isso bem claro, logo no primeiro encontro que haviam tido. Tinha que agradecer aos cus pelo fato de ela ter aceitado ser sua amiga.
Quando a festa do casamento terminara, Lorenzo procurou a me para lhe dar um beijo de boa-noite.
	Tudo saiu bem  ela suspirou satisfeita.
	 mesmo. Fiquei preocupado antes da cerimnia, com medo que Bernardo ou Angie desistissem na ltima hora.
	No ia ser Bernardo a desistir. Eleja havia me confessado que Angie era a mulher de sua vida  mamma retrucou com firmeza.
	Como sabemos que uma determinada mulher  aquela com quem devemos casar, mamma?
	Isso vem naturalmente. Veja, mesmo com todo o seu orgulho, Bernardo percebeu que Angie significava mais do que tudo para ele. Se voc ama de fato uma mulher, ela passa a ser a coisa mais importante de sua vida  a mamma respondeu serenamente e depois olhou cheia de esperanas para o filho.  Por que voc est me perguntando isso? Quem sabe reconheceu que est apaixonado...
	No  nada disso, mamma. Sou feliz solteiro. Pare de tentar me casar, como fez com meus irmos.
	Voc j percebeu que est sempre falando em Elena Angolini?
	Eu falo de Elena?  Lorenzo perguntou alarmado.  Esquea dela. Acredito que tenha ficado noiva de outro homem. Ela me disse que no ficou, mas no sou bobo. Aposto que vai anunciar logo a novidade.
	 por isso que voc no confessa que gosta dela?
	Vamos parar com essa conversa, mamma. Boa noite.
	Boa noite, filho.  Mar,ima Antonieta tinha f de que seu filho caula iria criar coragem e pedir Elena Angolini em casamento. S assim ela ficaria totalmente feliz. 
Helen chegou atrasada ao aeroporto e tinha certeza de que o avio em que Lorenzo viajava, j aterrissar. Sua esperana  que Lorenzo ficasse retido um pouco na alfndega. Olhou em volta da ala de desembarque e nem sinal dele. Vai ver se cansara de ficar esperando por ela e fora embora.
Olhou para o painel que anunciava quais avies j estavam em terra e para sua satisfao leu que o vo estava atrasado. Ficou na janela que dava para a pista, observando os avies que chegavam.
Helen estava surpresa com a falta que sentira de Lorenzo. Mesmo quando estava trabalhando, parava, s vezes, pensando nele. Assumira o posto de assistente de Erik e estava gostando do que fazia. Tivera alguns encontros com uns conhecidos, inclusive com um estudante de medicina. Haviam jantado juntos, passado algumas horas agradveis, mas ningum a divertira como Lorenzo.
Estava sempre recebendo presentes e flores. Todas as vezes que isso acontecia, ela se lembrava das rosas vermelhas, das amarelas e dos ursinhos que Lorenzo lhe havia enviado.
J fazia trs meses que ele voltara para seu pas.
Rememorando tudo que acontecera desde que Lorenzo fora embora, Helen se sentiu bastante solitria. Procurava se ocupar mais com o trabalho, especialmente agora que o Elroy estava se expandindo. Iriam inaugurar uma rede de hotis Elroy pelos Estados Unidos inteiro. Haveria um Elroy em Chicago, outro em Los Angeles e mais um em Las Vegas.
Essa notcia entusiasmou tanto Lorenzo, que ele decidiu voltar a Nova York para fazer contratos com todos esses novos hotis.
Helen sentia o corao bater mais forte. No demoraria, estaria vendo o rosto sorridente e feliz de Lorenzo. Uma hora se passou e nada do avio chegar. Helen no queria pensar o pior, mas comeou a se sentir bastante ansiosa.
Procurou o balco da companhia area em busca de informaes e ficou sabendo que o avio no chegara ainda, porque o trem de aterrissagem estava emperrado e no descia. O avio estava em pleno ar, dando voltas, tentando fazer a pea funcionar.
	E se no funcionar?  Helen perguntou comeando a se desesperar.
	O avio vai ter de descer de barriga. No precisa se preocupar, porque isso acontece, s vezes. Na maioria das vezes, ningum se machuca.
Helen voltou a olhar para o cu, tentando localizar o avio de Lorenzo.
Estava apavorada. Claro que Lorenzo ia escorregar nas escadas de emergncia que montavam nessas ocasies. Mesmo assim, no conseguia deixar de ficar ansiosa, especialmente quando viu que vrias ambulncias e carros de bombeiros estavam discretamente se dirigindo a um determinado ponto da pista.
Ouviu o alto-falante anunciar a chegada do avio. Ser que o trem de aterrissagem voltara a funcionar? De repente, imaginou que Lorenzo morreria na queda. Nunca mais ela o veria. Perderia seu amigo, concluiu tragicamente.
Helen viu quando o avio comeou a descer e percebeu que o trem de aterrissagem estava funcionando. No conseguia parar de tremer, assim mesmo. A aeronave tocou o cho com perfeio e taxiou na pista. Correu para a porta por onde os passageiros sairiam, mas nada de Lorenzo.
De repente, foi tomada por pensamentos ruins e concluiu que acontecera uma tragdia. Enganara-se de avio e o de Lorenzo chocara-se contra a pista. Lorenzo estava morto e ela nunca mais o veria. Quando j estava prestes a chorar, ouviu a voz querida ao seu lado.
Helen... Helen...
Lorenzo estava na frente dela, sacudindo-a um pouco para que ela voltasse a si.
	Helen, por que voc est chorando?  perguntou surpreso.
	Achei que seu avio cara e que no o veria mais  Helen soluou sem acanhamento.
	Calma, querida. O trem de aterrissagem acabou funcionando. O comandante nos avisou de que poderia haver problemas na chegada, mas eu estava com f de que tudo sairia bem no final. No  fcil me derrubarem, querida.
Helen percebeu a expresso carinhosa e tentou parar de chorar. No conseguiu e terminou nos braos de Lorenzo.
	Pensei que no ia v-la de novo  Lorenzo confessou emocionado. Tambm ele ficara assustado com a possibilidade do avio acidentar-se.
	No diga isso. No me deixe mais nervosa ainda.
	Precisamos de uma bebida forte  ele disse finalmente. Caminharam abraados at um barzinho, deixando para pegar as malas mais tarde.
Lorenzo parecia diferente, observou Helen. Estava mais bronzeado, os olhos muito azuis contrastavam com a cor da pele e os cabelos castanhos estavam mais claros.
Helen sentiu um arrepio ao pensar que algo poderia ter acontecido com ele momentos atrs.
	Voc no tinha o direito de me assustar desse modo  ela reclamou, como se fosse por culpa dele que o avio tinha demorado para descer.  Desde que o conheci, voc sempre me trouxe problemas. Primeiro me enganou, depois me beijou na frente de meus pais e... Parou subitamente, porque quase confessara que andava sonhando com ele continuamente. O medo de perd-lo a levara a uma concluso que ela no queria reconhecer.
Gostava demais de Lorenzo e no era s por amizade. Lorenzo pegou a pequena mo de Helen com carinho.
	Quando eu tinha oito anos, perdi-me na ilha e demoraram para me encontrar. Quando me entregaram para minha me, sabia que estava encrencado. Agora me sinto do mesmo jeito e sei que voc vai me passar um pito por t-la deixado nervosa, como deixei mame naquele tempo.
	Melhor irmos embora. Voc deve procurar descansar um pouco depois desse vo longo e do susto que passou.  Helen queria tempo para pensar com mais calma, entender melhor seus sentimentos. S de olhar para Lorenzo, j comeava a se sentir feliz e tinha que se esforar para no sorrir  toa.
No caminho para o hotel, conversaram sobre as viagens que ele faria dentro dos Estados Unidos. Programara sua ida para Richmond, Fnix, So Francisco, Los Angeles, Mnfis, Dalas, Nova Orleans.
	Vou estar muito ocupado, ao que parece.
	Depois dessas viagens, voc pretende voltar a Nova York?  ela perguntou, procurando no mostrar sua ansiedade.
	No tenho certeza. Voc quer jantar comigo hoje  noite?
	Acho que estarei livre.  Ela fingiu consultar sua agenda, mas nada no mundo a faria perder a ocasio de passar mais momentos ao lado de Lorenzo.
	Eu a encontrarei s oito horas no barzinho do hotel  ele combinou satisfeito.
 tarde, ela teve muito trabalho e chegou a ficar preocupada de no estar livre no horrio que combinara com Lorenzo. Atrasou-se um pouco e quando o viu esperando no barzinho do hotel, ficou feliz quando ele a fitou com admirao.
Helen deixara os cabelos soltos e escolhera um vestido que lhe caa muito bem.
Ele tambm estava muito elegante e parecia mais bonito ainda. Ao v-lo, Helen sentiu o corao palpitar mais forte. Tentou justificar o que sentia pelo fato de ter ficado to nervosa no aeroporto, temendo que ele tivesse morrido.
	Onde vamos jantar?  perguntou, quando Lorenzo se aproximou dela e beijou seu rosto.
	Vamos ao Blue Moon, claro  ele disse sorrindo sugestivamente.  Voc est muito bonita, Helen.
	No fique fazendo elogios como os outros com quem tenho sado.
	Voc tem sado com outros homens? E Erik no se importa?
	Nem um pouco.
	O que acontece ento entre vocs dois? Esto ou no esto noivos?
	J lhe disse que no estamos.
	Mas voc estava toda misteriosa. Tinha uma coisa para me contar e no revelou nada.
	Naquele encontro, ele me deu essa corrente.  Ela lhe mostrou o presente que Erik lhe havia dado.
	Deve ter custado um bom dinheiro  ele comentou meio irritado.
	Uns mil dlares, no mnimo.
	E voc aceitou o presente e no ficaram noivos?
	O presente foi uma espcie de adeus e pedido de desculpas.
	Ele arranjou outra namorada?  Lorenzo estava surpreso.
	Ele sempre esteve envolvido com outra pessoa. Estava saindo comigo, para que ningum descobrisse que tinha um namorado e no uma namorada.
	No acredito!
	Ele me apresentou o namorado. Chama-se Paul e  um timo sujeito. Erik resolveu assumir sua realidade. Gosta de homens, no de mulheres. Somos s amigos, como voc pode ver.
Lorenzo cobriu os olhos com uma das mos, tentando se controlar. No conseguiu e comeou a rir sem acanhamento. Tivera tanto cime de Erik, sem desconfiar que ele era gay.
Helen terminou rindo com ele, porque tambm pensara que o colega estivesse apaixonado por ela. Por sua vez, Erik se preocupara em no desiludir Helen. Agora estava tudo esclarecido.
	Voc ficou decepcionada?
	Nada disso, nunca pensei nele como meu namorado.
Lorenzo pensou estar ouvindo pssaros cantarem, tal era a sensao de alvio que sentia agora. Levantou o copo fazendo um brinde.
	Ao seu sucesso nos exames!  exclamou.
	Obrigada. Devo tudo a Gigi, meu ursinho. Levei-o junto, quando fui fazer a prova. Como voc teve a ideia de me mandar um ursinho? Geralmente os homens gostam de mandar flores.
	No sou como os outros homens  Lorenzo respondeu assumindo uma expresso orgulhosa. Terminou rindo ao se lembrar da surpresa que tivera quando chegara a conta de seu carto de crdito, contabilizando no s o ursinho como as dzias de rosas vermelhas e amarelas que tambm haviam sido entregues.
	Voc recebeu um carto com o ursinho?
	Recebi trs cartes e muitas flores, tambm  ela confessou divertindo-se com o embarao de Lorenzo.
Ele engoliu em seco. Helen havia recebido o carto falando de amor.
	No lhe disse naquela noite, porque percebi que voc pensava ter me enviado s o urso.
A floricultura no cancelou as outras entregas, pensou Lorenzo.
	Fiquei sabendo disso, quando vi a conta do carto de crdito.
	Amei os cartes, principalmente o primeiro.
	Aquele em que eu lhe mandava...
	Amor e os melhores votos?
	Bem, voc sabe,  uma frase muito usada, mas...
	Mas, o qu?
	No sei o que dizer. Estou meio confuso.
	Tambm estou  Helen reconheceu.
Ficaram em silncio por um certo tempo. Lorenzo a olhava de tal forma que Helen entendeu que estava escrito em seus olhos o que ele sentia por ela. Estava tentando no reconhecer seus sentimentos, assim como ela. Lembrou-se de como ele a beijara naquela noite em que haviam se conhecido.
	Talvez tenhamos um problema  Lorenzo disse ainda pensativo.
	No necessariamente  Helen respondeu, tentando manter a voz firme. Quem sabe ele insistiria em continuar apenas com a amizade.
	 que pensei que voc...
	No precisa se preocupar comigo. Fiquei muito nervosa hoje  tarde, foi s isso.  Ela no ia declarar estar apaixonada por ele, j que ele estava cheio de dvidas.
	Pensei que ia morrer e nunca mais ia v-la  Lorenzo sussurrou.
	Exatamente. Pensei a mesma coisa, mas isso no significa que tenhamos de tomar qualquer outra atitude quanto ao nosso relacionamento.
	 claro que no.
Nenhum deles falou mais nada sobre esse assunto delicado. Helen queria falar sobre o que haviam sentido, no entanto ele mudou de conversa, deixando-a meio depressiva.
Lorenzo no percebeu que ela se entristecera, porque estava tentando disfarar a tristeza que ele prprio estava sentindo.
Helen fizera tantos planos para os trs dias que Lorenzo passaria em Nova York, no entanto tudo parecia caminhar de forma errada.
Lorenzo passara bastante tempo com Erik, tratando dos negcios. Na vspera de sua partida para outra cidade, foi jantar com os pais de Helen deixando mamma Luzia toda esperanosa. O primo Giorgio estava presente e estragou praticamente toda a noite.
	Sinto muito  Helen lamentou, depois do jantar, enquanto estavam voltando ao hotel.
	Esquea o Giorgio. Vamos parar em um barzinho  Lorenzo convidou.
Terminaram na danceteria do Elroy.
Helen e Lorenzo chegaram com o propsito de ouvir a banda de jazz que tocava animando o ambiente e terminaram danando e se divertindo muito.
	Eu precisava disso  Lorenzo reconheceu, respirando forte, meio cansado com a agitao toda.
As luzes estavam baixas, mesmo assim ela viu que os olhos dele brilhavam intensamente no escuro. Queria guardar a imagem dele para os dias em que Lorenzo no estivesse mais perto dela.
Haviam passado trs dias sem falar sobre o que haviam descoberto naquela tarde no aeroporto. Tentavam negar seus sentimentos, como se eles no existissem. Era uma tarefa difcil, praticamente impossvel.
	Vou partir ama^ih de manh. Acho que deixarei o hotel, antes que voc chegue para trabalhar.
	Vamos dizer adeus agora, ento  Helen tentou falar com naturalidade.
	 melhor...  ele disse, ao mesmo tempo em que pegava a mo de Helen e a levava aos seus lbios.
Helen sentia dificuldade em controlar suas emoes. Lorenzo aproximou mais seu rosto do dela e beijou seus lbios suavemente.
	Elena...  ele sussurrou, chamando-a pelo nome que nunca usara antes.
	No diga nada.
	Por qu? Voc sabe o que estamos sentindo...
	Talvez seja melhor que no falemos sobre nossos sentimentos. Se o fizermos, podemos perder tudo aquilo que j temos.
	Podemos ganhar muito mais, no ?
Lorenzo percebeu que ela temia tomar um rumo diferente em sua vida.
	Tenho medo de perder sua amizade. Ela  muito importante para mim.
Helen no conseguia esquecer o que sentira quando ele a beijara na noite em que haviam se conhecido. Ela retribura o beijo e desejara mais dele. Deveria deix-lo saber disso?
	 hora de dizer adeus  ela disse com voz trmula.  J est tarde e voc tem de acordar cedinho. No quero que perca seu vo por minha causa. 
	Tem razo.  Ele no estava totalmente certo de que haviam tomado a melhor deciso.
Lorenzo acompanhou-a at a porta do hotel. Percebendo que no havia ningum na rua, ele tomou seu rosto nas mos e a beijou.
Helen sentiu o corpo estremecer de emoo.
	No consegui resistir ao desejo de beij-la. No fique brava comigo. Tambm no precisamos dizer adeus neste minuto.
Ela tentou responder, mas Lorenzo a beijou novamente. Eles eram s amigos, tentou se convencer. No entanto, queria sentir as mos msculas tocando seu corpo, queria que ele no parasse de beij-la. Procurou se controlar e usar o bom senso. No entanto, comeou a desejar que estivesse nua e ele a visse assim. Sabia que Lorenzo a acharia bonita.
Tiveram de parar de se beijar, porque perceberam que muitas pessoas estavam passando por eles e os observando.
	Adeus, signor Martelli  Helen sussurrou, procurando disfarar a emoo que estava sentindo.
	Adeus, srta. Angolini. Obrigada por sua ajuda.
	Entre em contato comigo se precisar de alguma coisa...  Helen falava agora como funcionria do hotel atendendo o hspede. Afinal, at o porteiro do Elroy estava de olho neles.
	 o que farei.
Um minuto depois, ele entrava no hotel, deixando Helen sozinha novamente.
Ela esperara tanto pela volta de Lorenzo e agora, quem sabe, ele iria embora de vez para a Itlia, sem voltar a Nova York. Talvez ele a convidasse para acompanh-lo at a Siclia, mas ela no aceitaria deixar seu pas e ir justo para o lugar que sempre criticara.
Fora melhor no ter confessado o que sentia por ele, porque a seria muito mais difcil resistir a tentao de se atirar em seus braos. Por que ento sentia que cometera um erro enorme, irreparvel?

CAPTULO VI

Havia uma fila enorme de pessoas esperando -para serem atendidas na portaria do Hotel Elroy de Nova Orleans. O calor estava to forte que Helen se abanava, j arrependida de ter se deixado levar pela irresistvel vontade de ver Lorenzo de novo.
Tirara uma folga do trabalho e tinha viajado at ali para lhe fazer uma surpresa. Devia estar louca quando tomara tal deciso, pensou. O que Lorenzo iria pensar dela?
Conseguira resistir a saudade por apenas seis semanas. Vez por outra Lorenzo enM>iava-lhe uma mensagem eletrnica ou lhe telefonava, mas estava trabalhando sem parar, conseguindo novos pedidos para a sua empresa. Seu irmo Renato devia estar orgulhoso do trabalho do irmo caula.
Helen o admirava cada dia mais, surpresa por ter errado tanto em seu primeiro julgamento: classificara Lorenzo de play-boy e agora constatava que era um homem responsvel e srio.
Enquanto Lorenzo viajava de cidade em cidade, ela o imaginava em cada uma delas. Quando estivera em Los Angeles, visualizara-o em uma praia, todo bronzeado e bonito, seguido pelos olhares de admirao das mulheres.
Agora era ela que o estava procurando. Tivera a ideia de passar uns dias com ele em Nova Orleans, pedira a folga para Erik que concordara na hora. Ter um chefe assim era uma ddiva de Deus. E, naquele momento, ali estava, na fila, esperando para pedir que ligassem para o quarto de Lorenzo.
De repente, Helen percebeu que ele se aproximava. Sonhara tanto com aquele momento e agora percebia que a realidade era melhor ainda.
No entanto percebeu que Lorenzo no vinha sozinho. Uma mocinha de uns dezoito anos estava praticamente pendurada nele. Deviam estar voltando da piscina, porque ele vestia short e uma camisa de manga curta, enquanto a garota exibia uma sada de praia transparente que deixava ver o biquini minsculo que usava.
Helen que ainda estava vestida com a roupa com que viajara, sentiu-se uma velha de cem anos.
No primeiro momento, desejou encontrar algum lugar para se esconder. Arrependera-se de ter vindo. Como lhe passara na cabea essa ideia absurda de lhe fazer uma surpresa? Surpresa estava tendo ela, ao v-lo com uma garota a tiracolo.
Percebeu que um casal de meia-idade, seguia Lorenzo e a garota.
	Venha conosco fazer compras  o mais velho falava.
	Tenho que trabalhar, sr. Baxter  Lorenzo respondeu e Helen notou que ele parecia desconfortvel e tentava afastar a mocinha sem sucesso.
	J lhe disse para me chamar de Dagwood.
	Tenho de trabalhar, Dagwood. No posso me dar o luxo de tirar folga agora.
	Ora, voc j fechou um negcio de um milho de dlares comigo. Agora relaxe e divirta-se.
	No posso. Minha namorada vai chegar a qualquer momento.  A voz de Lorenzo demonstrava o desespero que sentia e Helen respirou aliviada. Era a garota que estava atrs dele.
	No acredito que tenha uma namorada!  Calypso exclamou.  Est inventando s para se fazer de difcil, mas no desisto fcil. Gosto de homens assim.
	No  mentira  Lorenzo garantiu, cansado de tentar se livrar da mocinha o tempo todo.  Tenho uma namorada e ela se chama Helen. Vocs vo conhec-la.
	Que droga! Ligue para ela e cancele o compromisso  Dagwood reclamou, olhando com apreenso para a filha.
	Vou fazer um telefonema.  Lorenzo conseguiu se livrar de Calypso e comeou a discar o nmero do Elroy de Nova York.
	 do Elroy?  perguntou.  Quero saber se a srta. Angolini est a? Ainda no chegou? Preciso falar urgentemente com ela.  caso de vida e morte.
	Se  assim, voc pode me contar o que h neste exato momento  falou Helen, aproximando-se dele.
	Helen?! Voc est aqui! No, deve ser uma nova viso que estou tendo...
	Voc usou a lmpada mgica e aqui estou eu, meu senhor. E afinal, o que precisa me falar de to grave?  perguntou animada com a felicidade que percebia no olhar de Lorenzo.
	Helen, voc tem de me salvar das garras dessa garota maluca. Fechei um negcio milionrio com o pai dela e agora todos acham que tenho que divertir essa tal de Calypso.
Helen estava achando tudo muito divertido. Lorenzo estava mesmo desesperado.
	Voc est exagerando. Calypso  apenas uma garotinha.
	O pai lhe faz todas as vontades. Ela j  divorciada duas vezes e tem apenas dezoito anos. Pode acreditar nisso. Tenho de conseguir me livrar dela, sem perder o negcio seno Renato me mata.
	E agora Calypso qtfer voc e o pai est fazendo a vontade dela.
	Falei que tinha namorada, mas no adiantou. Tentei lhe telefonar o dia inteiro, mas voc no estava no Elroy.
	Isso porque estava em pleno ar a caminho daqui.
	Descobriu que eu precisava de voc. E veio  Lorenzo falou emocionado.
	Nem sabia que voc tinha me telefonado. Deve ter sido transmisso de pensamento. E afinal, voc no est interessado na garota? Ela  bem bonita e, alm disso, parece rica.
	Esse  um comentrio irritante  ele reclamou chateado.
	Desculpe-me. Olhe, ela est se aproximando de ns  Helen avisou.
	Ento  hora de ao  Lorenzo afirmou, enquanto puxava Helen para os seus braos e a beijava apaixonadamente, em frente de todo mundo.
Quando a soltou, ela estava totalmente trmula. Lamentou que estivessem no hall do hotel com a famlia Baxter olhando-os com raiva.
Querida, quero lhe apresentar meus novos amigos, Dagwood Baxter, sua esposa e sua filha Calypso.
Helen cumprimentou-os com um aceno de cabea. Calypso parecia aborrecida, o pai irritado e a me assumira um ar de tolerncia. Foi ela que convidou Lorenzo e Helen para jantarem com eles junto  piscina do hotel.
	Preferia jantar sozinho com voc  Lorenzo confessou baixinho, assim que conseguiram se livrar da famlia Baxter.
	Voc parece apavorado.
	Pode apostar que estou. Sou um rapaz inocente e minha me nunca me ensinou a lidar com garotas como aquela.
	Est bem, vou acreditar nisso. Inocente, hein?! E sua fama de conquistador, onde fica?
	Helen, ajude-me a me livrar dessa gente, por favor.
	No precisa implorar. Tambm no sei se vai dar certo. A garota no pareceu nada impressionada comigo.
	Ela ficar, se voc fingir que  possessiva durante o jantar.
	Farei isso com esforo  Helen riu feliz.
	No me deixe cair nas garras daquela pequena devoradora de homens. Vista-se de maneira sexy que ela a respeitar.
	Voc  um chantagista, mas vou ajud-lo.
Helen comprou um vestido muito ousado na butique do hotel. Era de seda creme e com um decote to ousado, que ela nem poderia usar suti por baixo.
Lorenzo a queria sexy, ento ela estaria sexy no jantar.
Ficou satisfeita com o olhar deslumbrado que ele lhe dirigiu, quando foi apanh-la no quarto em que se hospedara. Lorenzo estava com cala escura e uma camisa clara. Era um homem bonito demais, pensou Helen.
	Estou bem?  ela perguntou, j sabendo a resposta, pois estava escrita nos olhos dele.
	Est bem demais. At perdi a vontade de jantar e tenho novos planos.  Lorenzo respirou fundo, completamente perturbado com a sensualidade de Helen.
	No se esquea do pedido de um milho de dlares  ela brincou e, de mos dadas, foram se encontrar com a famlia Baxter.
Dagwood logo monopolizou Helen e Lorenzo teve de se sentar ao lado de Calypso. A garota se debruava sobre Lorenzo, sem se importar com a presena de Helen. Parecia que pai e filha haviam preparado um plano contra Helen. Dagwood, sem acanhamentos, procurava distra-la, para dar chance da filha fazer sua conquista.
	Desde quando vocs dois se conhecem?  perguntou a sra. Dagwood, um tanto envergonhada com o comportamento do marido e da filha.
	Desde janeiro  Lorenzo disse.  Ns nos conhecemos em circunstncias interessantssimas. Conte-lhes como foi, querida.
	No acredito que queiram saber de nosso romance  Helen sussurrou, fitando-o nos olhos.
	Vocs esto comprometidos mesmo?  Calypso indagou, vendo suas chances de conquista diminurem.
	Ah, sim  Helen respondeu, quase no conseguindo mais controlar o riso. Percebeu que Lorenzo fazia o mesmo esforo.
	Vamos beber  Dagwood resolveu, no muito satisfeito com o rumo que o jantar ia tomando.
	Seu noivo contou para voc o que andamos fazendo? Ficamos todo o tempo juntos, sabia?  Calypso perguntou, colocando sua mo sobre o peito de Lorenzo. 
Helen perdeu a pacincia.
	Se voc no quiser ser jogada na piscina com roupa e tudo, tire a mo de meu noivo!  exigiu encarando a garota.
	Pai, ela me ameaou!  Calypso gritou assustada. 
	No admito que trate minha filha assim, mocinha!  Dagwood estava furioso.  Sua noiva insultou a pobre Calypso!
 disse, voltando-se para Lorenzo.
	No foi um insulto e sim uma ameaa  a sra. Dagwood corrigiu o marido.
	Insulto ou ameaa, seja l o que for, o que voc vai fazer a respeito, Martelli?
	Vou me casar com ela  Lorenzo respondeu todo sorridente.
	Esquea nosso negcio, ento. Vai desistir do pedido?
	No momento, estou mais preocupado com o meu casamento.
Dagwood se levantou na mesa e arrastou esposa e filha para fora do restaurante.
Helen e Lorenzo tiveram um verdadeiro acesso de riso.
	Voc foi maravilhoso.  o primeiro homem que vira as costas para um milho de dlares por minha causa.
	Vamos danar?  ele convidou, feliz por estar finalmente sozinho com Helen.
Uma banda tocava ao lado da piscina em um clima muito descontrado.
	Como voc vai explicar a Renato que perdeu um negcio to vantajoso?  Helen comeou a ficar preocupada.
	Direi a ele que venha pessoalmente enfrentar a famlia Dagwood. Que seja ele a lidar com aquele homem e aguente a garota pendurada em seu pescoo.
Lorenzo olhava fascinado para Helen e seu olhar se deteve no decote ousado de seu vestido.
	Pare com isso, voc no est se portando como um cavalheiro!  Helen reclamou, ao perceber onde o olhar dele estava fixo.
	Helen, estou tentando me controlar, mas seu vestido  to revelador... No deveria ter sugerido que se vestisse to sexy  ele se justificou, puxando-a mais para perto.
Helen sentiu-se trmula e desejou que o abrao fosse mais ntimo ainda. Percebeu que no devia deixar que o relacionamento dos dois tomasse esse rumo, no entanto, estava sem foras para afast-lo.
Estava ficando tarde e a msica era bastante romntica. Helen comeou a ficar preocupada, pensando se no fizera bobagem vindo procurar Lorenzo. Praticamente revelara estar apaixonada por ele.
	Quanto tempo voc ainda vai ficar em Nova Orleans?  ela terminou perguntando.
	Uns dois dias. Voc pode ficar esse tempo aqui comigo?
	Posso. Depois disso, voc vai voltar para a Itlia, no ?
	Voc pode ir visitar a Siclia  Lorenzo respondeu, como que entendendo o que ela estava pensando.
	No penso que seja uma boa ideia. O que sua famlia iria pensar?
	Que estamos apaixonados?  Ele se inclinou e beijou-a levemente.
Helen bem que tentou falar, mas aconchegou-se ao corpo msculo correspondendo ao beijo com intensidade. Reconheceu que vinha querendo que isso acontecesse desde aquele beijo roubado na frente da casa de seus pais. Uma estranha sensao de prazer percorreu seu corpo e ela estremeceu.
Quando o beijo finalmente terminou, perceberam que a banda havia parado de tocar e todos estavam olhando para eles com simpatia.
	Estamos dando um show. Vamos para um lugar mais reservado.  Lorenzo abraou-a protetoramente e saiu, enquanto todos aplaudiam o casal.
	Elena...  Ele a levara at a porta do quarto em que ela estava hospedada.
	No diga nada. V dormir.  Ela abriu a porta e tentou entrar sozinha, mas ele suspirou de tal forma que ela hesitou.
Pegou a mo de Lorenzo e o puxou para dentro de seu quarto.
Quando ele tentou acender a luz, Helen o impediu. Ficaram na semi-escurido, sem se tocarem.
	Elena  ele disse novamente e ela no reclamou. Naquele momento, ela no era Helen, mas Elena, com todo seu sangue siciliano pulsando furiosamente nas veias.
Beijaram-se deixando a paixo domin-los totalmente. Todas as barreiras pareceram ^cair e no havia mais razo alguma para esconderem de si mesmos o que estavam sentindo. S queriam recuperar o tempo perdido, abraando-se com urgncia.
	Dissemos que no deveramos fazer isso  ele murmurou. 
	Estvamos errados.  Ela o puxou de volta para junto de si e, dessa vez, tomou a iniciativa do beijo.  Isso  algo que devemos fazer!
	Sempre soubemos disso, no ?  ele perguntou, comeando a descer o zper do vestido e fazendo-o escorregar pelo corpo sinuoso e cair no cho.
Helen no o impediu, mesmo sabendo que por debaixo do vestido restava apenas a calcinha. Queria que ele a visse nua, que sentisse o calor de seu corpo. Queria sentir o calor do corpo dele, tambm.
	Foi uma tortura v-la com aquele vestido transparente
e ter de manter distncia  Lorenzo murmurou, enquanto
procurava tirar rapidamente sua camisa.
Helen observou e soube que o desejava, pois nenhum homem despertara nela a mulher sensual que havia seu interior.
Lorenzo a levou para a cama e a fez deitar-se. Ficou olhando-a por um longo tempo, com um sorriso de admirao nos lbios.
Comeou a acariciar primeiro seu rosto, depois os lbios e, por fim, tocou em seus seios, tudo bem de leve, com a ponta dos dedos.
Helen temeu no conseguir aguentar a sensao que envolvia seu corpo, quando as mos de Lorenzo envolveram seus seios, enquanto a beijava.
Helen sentiu que seu corpo inteiro despertava sob os lbios do homem que ela queria tanto. Era como se estivesse escrito no livro da vida que pertenceriam um ao outro.
Lorenzo encostou seu corpo musculoso sobre o dela e Helen soube que logo pertenceriam um ao outro. Roou seus lbios no peito dele e o ouviu gemer. Queria dar a ele o mesmo prazer que Lorenzo lhe estava proporcionando. Deslizou as unhas em suas costas e o puxou mais para si.
Naquele momento, o telefone tocou.
	Oh, vamos fingir que ele no est tocando  ela pediu, apesar de saber que deveria atender.
	Querida, algum est procurando por voc. Pode ser alguma coisa importante.
	Mas quem chamaria a esta hora?  ela exclamou frustrada.
	Vamos descobrir  ele disse, entregando-lhe o aparelho.
	Al  falou Helen finalmente.
	Preciso falar urgentemente com Lorenzo Martelli  uma voz feminina disse em um tom preocupado.  Ele no est em seu quarto e me disseram que talvez voc saiba informar onde ele est.
	Lorenzo est aqui  Helen respondeu, passando o aparelho para Lorenzo, enquanto descia da cama e vestia um roupo de seda. Sentiu um grande desnimo.
	Carssimal  Lorenzo comeou a falar em italiano e Helen resolveu ir ao banheiro e lavar o rosto com gua fria.
Fora difcil interromper o ato de amor e todo seu corpo doa. Tentou imaginar quem estaria procurando por Lorenzo com tal urgncia. Era uma mulher, pensou meio inquieta.
Quando ouviu o barulho do telefone sendo desligado, ela voltou ao quarto.
	O que , querido?  perguntou ansiosa, voltando aos braos dele.  Voc est plido, o que aconteceu?
	Era minha cunhada Heather avisando-me que minha me est internada em um hospital!
	Oh, no! O que ela teve?
	Parece que foi um ataque cardaco. Sabia que ela tinha um problema no corao, mas nunca imaginei que pudesse sofrer um ataque. Heather quer que eu volte imediatamente para casa.
	Ento  melhor arrumar suas coisas logo, enquanto eu lhe reservo uma passagem de avio.
	Helen, venha comigo, querida. Vou precisar de voc, se o pior acontecer.
	No fique pensando assim.  claro que vou com voc.  Helen nem parou para pensar nas consequncias daquela afirmao.
	Estou sendo egosta demais. Isso prejudicaria o seu servio  Lorenzo lembrou, enquanto se vestia rapidamente.
	Voc no quer que eu v junto?  ela perguntou olhando- diretamente nos olhos.
	Claro que quero, mas e o seu emprego? Justo agora que conseguiu a vaga...
	Bobagem. Falo com Erik e digo que preciso acompanhar voc. Agora, v pegar suas coisas.
Helen sentiu que seus olhos se enchiam de lgrimas. Ligou para a portaria e em poucos minutos havia reservado passagens para Nova York de onde tomariam o vo para a Siclia. Agora era hora de falar com Erik e, como ela esperava, conseguiu uma folga prolongada.
	Voc vai precisar do passaporte  Erik falou todo prestativo. Vou mandar Joanne lev-lo no aeroporto, pelo menos voc no ter de vir busc-lo.
Depois de toda essa movimentao, Helen tomou conscincia que agira impulsivamente. Seu emprego era importante e ela quase que o abandonara para seguir Lorenzo. Naquele momento, somente queria estar ao lado dele e confort-lo.
Isso devia ser mais do que desejo. Tinha que ser amor.

CAPTULO VII

Helen avistou a Siclia da janelinha do avio. Ali estava o lugar que indiretamente tinha afetado toda a sua vida, inclusive moldado seu jeito de ser. A ilha havia sido uma espcie de membro da famlia, comandando a distncia o comportamento de todos. Para ela, fora como uma espcie de inimigo e agora, vista de cima, o tringulo de terra banhada por um brilhante mar profundamente azul. Era um espetculo de beleza. Prximo de Palermo, onde desembarcariam, a costa era toda franjada de lagunas.
Virou-se para Lorenzo, para lhe apontar a ilha. Ele estava plido, contando os minutos que faltavam para o avio aterrissar e temendo receber a notcia de que sua me j morrera.
Helen pegou suas mos com carinho e Lorenzo a olhou com gratido. Estava vulnervel, quase desmoronando. Mais uma vez teve certeza de que era mais do que paixo o que sentia por ele. Estava sofrendo ao v-lo daquele jeito.
Finalmente desembarcaram e Lorenzo logo viu Heather, sua cunhada, acenando-lhe e fazendo sinal de positivo.
	Ela est fora de perigo e chamando por voc  gritou Heather antes mesmo de chegarem perto um do outro.
Lorenzo mal conseguia falar. Respirou fundo, passou a mo pela testa e teve de se sentar em um banco que havia ali perto. Finalmente se recuperou e fez as apresentaes.
	Helen, esta  Heather, que  casada com meu irmo Renato. Heather, esta  Helen Angolini que veio comigo porque...  ele parecia no estar conseguindo encontrar as palavras certas.
	Entendo  sua cunhada disse com um sorriso maroto.  Seja bem-vinda, Helen. Toda a famlia vai ficar feliz em conhec-la, especialmente depois do que Lorenzo nos contou. Ele praticamente s fala em voc.
No era o momento de perguntar o que Lorenzo tinha dito dela, pensou Helen. Logo estavam em um txi, porque Heather, j no final da gravidez, no queria dirigir para no pressionar a barriga. Em pouco tempo, chegariam ao hospital de Palermo, onde mamma Antonieta estava internada.
	Mamma comeou a respirar com dificuldade e ficamos assustados. No teve propriamente um enfarte, mas como sabemos que ela no segue os conselhos do mdico nem consegue ficar quieta, decidimos intern-la para que pudesse receber um tratamento adequado. Agora os mdicos conseguiram estabilizar sua respirao. Ela vai ficar encantada que Helen tenha vindo junto com voc.
Helen deixou Heather e Lorenzo conversarem e ficou observando o carinho com que se tratavam. A famlia era bastante unida, concluiu.
Chegaram por fim ao hospital e Helen identificou Renato assim que ele se aproximou. Era moreno, no to alto quanto Lorenzo e bastante musculoso, mas tinha uma certa semelhana com o irmo.
	Mame voltou a li e chamou por voc, Lorenzo  Renato disse, enquanto abria a porta do quarto e Helen pde ver uma senhora de cabelos bem brancos deitada na cama.
Lorenzo correu para ela, abraando-a e falando palavras carinhosas em italiano. Helen percebeu o contentamento da doente ao ter o filho de volta.
	Estamos felizes que Lorenzo a tenha trazido, Helen. Queramos muito conhec-la  Renato falou voz baixa.
	Voc veio para dar apoio a Lorenzo, no ? Isso  maravilhoso de sua parte. Mamma vai melhorar s de saber as boas notcias.  Heather olhava Helen com admirao.
	Boas notcias?
	Claro. Eu sei que ainda no  nada oficial. Vou lhe contar um segredo. J estvamos sabendo que isso ia acontecer, mesmo quando Lorenzo afirmava que voc no queria se casar com ele.
	Ele disse isso?
	Lorenzo falava de voc o tempo todo. Ele a elogiava tanto que ficamos ansiosos em conhec-la. Percebemos que voc era diferente das mulheres que sempre o perseguiram.
Helen tomou conscincia de que todos ali iriam pensar que ela viera como noiva de Lorenzo. No entanto, apesar de ele ter feito um pedido de casamento por brincadeira, logo que a conhecera, ultimamente no tinha tocado no assunto. Quase tinham feito amor, mesmo assim, ele no lhe pedira que ficassem juntos.
O que ela fizera, atravessando um oceano s para continuar ao lado dele? Largara at o emprego, apesar de que Erik lhe garantira que iam considerar essa sua viagem como uma pequena folga. Sabe-se l se iam mesmo lhe guardar a vaga.
	Mame quer conhec-la  Renato disse aproximando-se de Helen.
Ela o seguiu pelo quarto at onde estava a senhora de cabelos brancos. Mamma Antonieta continuava abraada ao filho caula, mas quando viu Helen, sorriu e pegou-lhe as mos.
	Minha filha...  falou emocionada.
A me de Lorenzo a chamara de filha. Q sonho de mamma Antonieta e o de mamma Luzia parecia estar se realizando.
	Signora  Helen disse meio sem jeito, tentando encontrar as palavras certas para falar com a doente.
	No precisa me chamar de signora, isso  muito formal. Chame-me de mamma como todo mundo. Quero lhe agradecer por ter vindo com meu filho.  Ela parecia falar com certa dificuldade.
	Chega, mame. Voc tem de descansar agora, depois desse esforo todo  Lorenzo decidiu, ajudando a me a se deitar novamente.
	De fato estou cansada. Vamos conversar depois, mas agora quero lhes contar uma deciso que Victor e eu tomamos, meu filho. Vamos adiantar a data de nosso casamento, para podermos ficar mais tempo juntos. Mamma Antonieta estava serena, quando chamou Victor, seu namorado de infncia, para receber o abrao de Lorenzo.
Helen emocionou-se ao ver mama Antonieta e Victor se olharem com carinho.
	Helen, voc vai ficar para o meu casamento. Quero toda minha famlia presente.
Helen tentou inventar alguma desculpa, dizer que tinha de voltar ao trabalho, porm apenas sorriu para a me de Lorenzo.
Era como se estivesse sendo levada pela mar e no tinha foras para mudar o seu rumo.
Lorenzo resolveu ficar fazendo companhia para a me at que ela adormecesse. Heather levou Helen para o casaro da famlia Martelli, que ficava a alguns quilmetros do hospital.
O caminho era todo cheio de flores e o casaro, enorme, com trs andares seguia o estilo medieval. Parecia um castelo, na verdade.
Helen seguiu Heather at um dos quartos e encontrou uma das empregadas desfazendo suas malas e arrumando sua roupa no armrio. A mocinha j desfizera duas das malas e agora s restava a menor, a que continha suas jias.
	Sara, o que voc est fazendo aqui?  Heather perguntou impaciente.  Mandei Anya fazer esse servio.
	S quis ajudar, senhora. Anya estava ocupada...  a empregada procurou se justificar.
	Est bem, agora pode sair.
Helen percebeu que Heather parecia aborrecida com a presena daquela empregada ali no quarto. Pensou em perguntar o porqu, depois achou melhor no se envolver nesse assunto.
	Helen, venha ver qu linda  a vista daqui da janela.  Heather abrira a janela que dava para um terrao enorme e cheio de plantas.  Daqui voc pode ver parte da ilha, inclusive algumas montanhas. No o vulco Etna, claro, porque ele fica bem longe daqui.
	 maravilhosa!  Helen suspirou, olhando a paisagem.  Tenho escutado falar sobre esta ilha desde que nasci, mas nunca a imaginei to espetacular.  Depois, voltou para o quarto.  No precisavam me dar esse quarto imenso. Eu podia ficar em um bem menor.
	Foi aqui que fiquei hospedada, quando vim pela primeira vez para a ilha. Estava na ocasio com minha amiga Angie, a que se casou com Bernardo recentemente.  Heather sorriu e aconselhou:  Descanse um pouco antes do jantar.
	Primeiro, gostaria de telefonar para meus pais. Esto felizes porque vim para a Siclia, mesmo assim ficam apreensivos com as viagens areas.
	Claro, ligue daqui mesmo  Heather falou, apontando para o telefone que estava na cabeceira da cama.
Mamma Luzia parecia estar ao lado do telefone, esperando Helen ligar. Quis saber como estava a amiga Antonieta, depois perguntou sobre a casa dos Martelli e, finalmente, encerrou a conversa dizendo que tinha que ligar para os parentes e contar as novidades.
Helen suspirou conformada.
O que estou fazendo aqui, perguntou-se Helen mais uma vez. No conseguia ficar longe de Lorenzo, no depois de quase terem feito amor. Sentiu o corpo quente, s de pensar que chegaria o momento em que terminariam o idlio que haviam comeado no quarto de hotel em Nova Orleans.
Uma outra empregada entrou no quarto, dessa vez trazendo caf e sanduches. Helen comeu um pouco, depois se deitou. Acordou sentindo algum lhe tocando nos lbios.
	Que bom que voc est aqui, querida  Lorenzo sussurrou, abraando-a.  Nem sei o que faria se voc tivesse ficado nos Estados Unidos.
	Sua me est melhor e voc nem precisa de mim.
	Vou sempre precisar de voc. Esqueceu-se de que temos um negcio inacabado?
	E quando o terminarmos, vou poder voltar aos Estados Unidos?
	Nosso negcio no vai terminar nunca, pelo menos enquanto vivermos  ele afirmou enquanto a apertava nos braos e a beijava, sfrego.
A emoo tomou conta de Helen. Nunca se sentira assim antes. Temia dar um nome para o sentimento que a dominava. O fato  que estava onde deveria estar, onde queria estar. Como poderia viver longe de Lorenzo?
	Vim lhe dizer que a esto chamando para o jantar  ele disse, quando o beijo terminou.
	Ento tenho pouco tempo para um banho.
	Voltarei daqui a pouco para busc-la  Lorenzo disse, saindo a contragosto do quarto.
De fato, voltou um pouco mais tarde, dessa vez acompanhado de Heather. Eles pareciam se dar muito bem.
Na ausncia da me de Lorenzo, a casa ficara sob a responsabilidade da esposa do filho mais velho. Por sinal, Renato j estava sentado  mesa, e reclamando, quando Lorenzo, Helen e Heather desceram para a sala de jantar.
	O que aconteceu para Dagwood Baxter ligar cancelando aquele pedido milionrio?
	Tivemos um pequeno desentendimento.
	Por qu?
	Ele insultou Helen.
	Neste caso, espero que voc tenha respondido a altura. No precisamos de clientes assim.
O jantar transcorreu de maneira agradvel, com todos demonstrando a simpatia que sentiam um pelo outro. Helen fora aceita no grupo. Fora tola em ficar apreensiva, pensou.
Mamma Antonieta recebeu alta do hospital e voltou para casa.
Comearam os preparativos para seu casamento com Victor, porque ela parecia estar com pressa de oficializar a unio. Afinal, deveria ter se casado com ele quando mocinha e s ia realizar seu velho sonho agora, que estava velha e doente. Por vezes, ficava meio triste, depois se animava de novo. Antes tarde do que nunca, conclua.
A famlia inteira queria ajudar e o entusiasmo tomou conta da manso. At o filho que Victor tivera de seu primeiro casamento estava para chegar de Roma para ser um dos padrinhos. Quase houve uma briga entre Renato e Lorenzo, para ver quem levaria a me at o altar.
Bernardo que era apenas filho de criao, no entrara na briga, mas seu olhar demonstrava claramente que queria ser ele a lev-la. Por fim, Helen resolveu dar uma ideia.
	Por que vocs trs no a levam para o altar. Um vai  frente e os outros dois lhe do o brao.
	Esta  uma ideia maravilhosa!  mamma Antonieta exclamou entusiasmada.  E assim mesmo que quero entrar na igreja, junto de meus trs filhos.
Todos respiraram aliviados. Mais tarde, Angie, a esposa de Bernardo, aproximou-se de Helen com ar de agradecimento.
	Voc deixou meu marido muito feliz, Helen  ela disse.  Que bom que voc faz parte da famlia.
Todos olhavam para Helen e sorriam. No havia jeito algum de ela poder explicar que ainda no era uma Martelli, j que Lorenzo nem fizera qualquer pedido formal.
Naquela noite, Lorenzo e Helen resolveram ficar no terrao, olhando o mar a distncia e a lua enorme que tomava conta do cu.
	Minha me adorou voc. Aquela sua ideia de todos ns trs a levarmos para o altar, foi incrvel. Resolveu que vai convid-la para ser sua dama de honra.
	E Heather e Angie?
	Ambas esto grvidas. Heather est quase para ter o filho.
	Mas no fao parte da famlia...
	Mas logo far  ele disse simplesmente.
Era a hora certa para dizer que no podia se casar com ele. No entanto, deixou-o abra-la, como se concordasse com a ideia. Sentiu sua proximidade e estremeceu. Helen queria que ele beijasse seu corpo todo, como fizera em Nova Orleans. Mas, no momento, isso no era possvel, no na casa de mamma Antonieta. A no ser que estivessem casados...
s vezes, tentava negar que estivesse apaixonada e queria se convencer que apenas queria fazer amor com Lorenzo. No conseguia ficar junto dele sem querer que ele a abraasse e beijasse. Seu corpo exigia um contato mais ntimo. Quando ele no estava ao seu lado, pensava nele o tempo todo. Ia dormir desejando t-lo ao seu lado e no estava conseguindo imaginar uma vida longe de Lorenzo. Isso seria apenas desejo?
Jurara nunca se casar com um sicilino. Teria que criar coragem e ir embora dali.
Resolveu deixar essa atitude para mais tarde.
Mamma Antonieta estava preocupada com Heather, porque pressentia que a criana estava prestes a nascer.
	No quero que voc fique se cansando com a casa  recomendou a Heather.
	Mamma, fique sossegada. A casa no est me dando trabalho algum. S que preciso lhe falar uma coisa... Vou ter de despedii; Sara por que ela est nos roubando.
	De npvo? Eu a peguei uma vez roubando e a perdoei, deixando-a continuar aqui.
	Estou1 com medo que ela pegue alguma das jias de Helen, mamma
	Ento pode dispens-la. Agora vamos falar de coisas mais agradveis. Elena concordou em ser minha dama de honra  falou entusiasmada.  Elena, venha c. Estvamos falando de voc. Vamos almoar todas juntas, Heather, Angie, voc e eu.
Apesar de toda a agitao da casa e do carinho que todos pareciam dedicar a ela, Helen comeou a sentir falta do trabalho. Estava cansada de ficar sem fazer nada e preferia ter uma pilha de coisa para fazer, de preferncia no Hotel Elroy. Ao mesmo tempo, queria estar ao lado de Lorenzo.
Felizmente, Erik lhe telefonou pedindo ajuda.
	Voc poderia nos fazer um favor, Helen? Estamos precisando de que algum nos ajude em Palermo. J ouviu falar do Castella di Farini?
	Aquele palcio que h em Palermo? Sei onde .
	O Elroy est comprando o Castella para transform-lo em um hotel. O negcio est praticamente fechado, mas o dono agora resolveu criar uns probleminhas. Nossos advogados no o entendem bem, porque ele resolveu s falar no dialeto siciliano. Voc  a pessoa perfeita para resolver esse impasse, querida.
	Fique tranquilo. Vou adorar trabalhar de novo.
Quando desligou, sentia-se uma nova mulher. Precisava arranjar uma conduo ^para lev-la at Palermo e, para sua sorte, Lorenzo apareceu, ouviu sua histria e concordou em lhe dar uma carona.
	Vou dar uma de siciliana, afinal  disse Helen, surpresa consigo mesma.
	Finalmente voc reconhece sua ligao com esta ilha maravilhosa, hein?
	Estou com medo de no conseguir fazer o que Erik pediu. Quando falei com ele ao telefone, mostrei-me confiante, mas agora estou meio preocupada. E se o dono do palcio no quiser me receber?
	Voc quer que eu v com voc?  Lorenzo perguntou querendo facilitar as coisas para Helen.
	No, querido. Tenho que fazer isso sozinha. No quero que ele me receba, simplesmente porque estou com utn Martelli ao meu lado.	
No caminho, Helen observou uma outra construo do passado da Siclia. Dias antes, visitara umas runas e Chegara a se emocionar. Quando chegaram em frente do Castella di Farini, ficou satisfeita: ia conhecer mais uma das relquias mais famosas da ilha a trabalho!
	Quer que eu a espere ou prefere dar uma de mulher independente?  Lorenzo perguntou brincando.
	Isso. Volto de txi, querido.
O dono do Castella recebeu Helen cheio de gentilezas. Adorou que ela falasse em dialeto siciliano e lhe mostrou toda a propriedade. Cada cantinho era maravilhoso e quando transformado em hotel faria um sucesso enorme.
Helen comeou a ter ideias e mais ideias de como poderia ser montado o Elroy ali.
Helen logo percebeu que o dono queria ganhar um pouco mais com a venda e isso era perfeitamente aceitvel. Fingiu que acreditava que ele no quisesse mais vender a propriedade e inventou que o Elroy estava tambm interessado em outro palcio, um que ela vira no caminho at ali. De fato passara pelo Palazzo Lombardi, onde agora funcionava um museu.
Meia hora depois, ela saiu do Castella di Farini com o negcio fechado. A animao a fez telefonar imediatamente para Erik.
	Meu amigo, arrisquei tudo, inventei umas histrias e consegui com que o dono fechasse o negcio. Se eu tivesse falhado, seria despedida, no ?
	Voc fez o que devia fazer, Helen. Lembra-se de Axel Roderick? Quero que telefone para Axel contando as novidades. Ele foi escolhido para ser o gerente do hotel da.
Helen telefonou imediatamente para Roderick, recebeu umas incumbncias e concordou em receb-lo no aeroporto, na semana seguinte. Desligou, sentindo-se satisfeita consigo mesma. Tomou um txi e voltou para a casa dos Martelli. Lorenzo estava  sua espera, passeando no jardim, apreensivo com sua demora.
	Todos j esto jantando  ele avisou, beijando-a.
	Desculpe-me, perdi a noo do tempo.
	No se preocupe. Expliquei a todos, aonde voc foi.
Durante o jantar, ela contou o que fizera para convencer o dono do palcio a vender a propriedade sem aumentar o preo. Renato mostrou-se impressionado com o talento de Helen em fazer negcios. Cada vez mais ela era aceita pela famlia.
Helen sentia-se feliz com isso, mas ao mesmo tempo algo a incomodava. Era como se estivesse sendo presa em uma gaiola de ouro.
CAPTULO VIII

Axel Roderick chegou  Siclia e Helen foi receb-lo no aeroporto. Era um administrador com talento, daqueles que gostavam de delegar obrigaes. Logo que ouviu as ideias que Helen tinha para a reforma do palcio, convidou-a para trabalhar com ele. Ela aceitou imediatamente, porque assim teria tempo para decidir se queria mesmo largar tudo o que planejara antes e ficar ao lado de Lorenzo, mesmo que fosse na Siclia.
Bastou ligar para Erik para conseguir sua transferncia temporria para a Itlia. Tudo parecia perfeito e ela ia at ganhar mais.
As reformas no palcio comearam e Helen se envolveu com-pletamente no trabalho. Havia ainda os preparativos para o casamento da me de Lorenzo, mas ningum lhe pediu que se encarregasse de alguma coisa. Sua nica preocupao era escolher o vestido de dama de honra que usaria.
Apesar de que todos andavam meio preocupados com a sade de marnma Antonieta, porque ela estava se cansando demais, ningum tinha coragem de falar isso abertamente.
A velha senhora fora apaixonada por Victor quando mocinha, no entanto fora obrigada a se casar com Cario Martelli, em uma combinao entre famlias. Agora, nem Renato, nem Lorenzo e nem Bernardo haviam ido contra o casamento de mam-ma Antonieta com Victor, porque reconheciam que eles tinham direito de, pelo menos, passarem a velhice juntos. Ambos estavam vivos e j tinham criado os filhos. Mereciam a felicidade, mesmo que esta viesse meio tarde.
Finalmente chegou o grande dia.
A cerimnia religiosa foi celebrada em uma das capelas da Catedral de Palermo.
Helen chegou com Heather e Angie. Mamma Antonieta estava uma beleza com um vestido de seda cinza, usando apenas um colar de prolas que Victor lhe havia dado de presente.
Victor passara para os filhos a empresa de flores que mantinha em Palermo, porque ia morar na casa dos Martelli que ficava meio afastada da cidade. Antonieta no quisera nem se imaginar longe da casa onde criara seus filhos e vivera tanto tempo.
Helen entrou na frente da noiva com um buque florido nas mos. Estava feliz por estar participando de um momento de felicidade da velha senhora que entrava na igreja ao lado de seus trs filhos.
Lorenzo era o mais alto e o mais bonito dos trs, pensou orgulhosa. Percebeu que Lorenzo a olhava com carinho, como se estivesse lhe passando a mensagem de que seu lugar era ali na Siclia e junto da famlia Martelli. Para ele, o que realmente importava, era o amor.
	Por que voc est to pensativa?  Lorenzo perguntou, quando j estavam na festa e Helen observava o casal de noivos cortando o enorme bolo de casamento.
	Estou contente por eles.
	E era voc quem dizia no querer nada com a famlia. Vou lhe confessar que todos aqui esto apaixonados por voc e a consideram como uma Martelli.
	Voc faz tudo parecer fcil, mas no .
	Por que no? Voc est com seu emprego, no teve de abandon-lo. E nos amamos. Levei um bom tempo, para confessar a mim mesmo que era amor o que eu sentia por voc. Agora sei o que quero para o meu futuro e voc est nele.
Helen ficou em silncio, olhando os convidados da festa. Subitamente, Lorenzo ajoelhou-se e segurou suas mos. Todos pararam para ver o que estava acontecendo.
	Elena, voc quer se casar comigo?
	Levante-se, por favor  pediu Helen, toda embaraada.
	S quando voc aceitar o meu pedido de casamento.
	Ento vai ficar ajoelhado para sempre.
Todos comearam a aplaudir, pois ele a levantara nos braos e a beijava. Parecia que ela dissera sim. No se lembrava de ter dito nada, mas no podia rejeitar um homem que se ajoelhava diante dela e a pedia em casamento diante de toda sua famlia.
A notcia do noivado entre Helen e Lorenzo chegou at os Estados Unidos e Luzia e Nicolo Angolini estavam radiantes. Para mamma Antonieta e mamma Luzia no houvera surpresa alguma, pois sempre haviam estado confiantes de que seus filhos se uniriam.
A vida da famlia Martelli era cheia de acontecimentos. Primeiro, a me de Lorenzo ficara doente, depois se casara. No demorara nada, e Helen e Lorenzo haviam decidido se casar, sem noivado longo. Agora nascia o filho de Heather e Renato.
O parto foi complicado. A famlia toda se reuniu na sala de espera do hospital e os mdicos pareciam meio preocupados, porque a criana estava demorando para nascer. Tiveram que fazer uma cesariana.
Helen ficou surpresa em ver Lorenzo nervoso, andando de um lado para o outro. Quando Renato apareceu na sala de espera dizendo que nascera um menino e tanto o beb como Heather passavam bem, Lorenzo chegou a dar pulos de contentamento e, seus olhos estavam cheios de lgrimas de emoo. Helen terminou rindo e chorando ao mesmo tempo.
Dias depois, quando Heather voltou com o beb para casa, comentou com Helen que, no comeo, se surpreendera com o esprito de famlia que tinham os italianos. Ningum queria viver separado, reuniam-se em festas aps festas, comemorando o que quer que fosse. Estava satisfeita de pertencer  famlia Martelli e no conseguia imaginar sua vida fora dali.
J Helen, apesar de estar apaixonada por Lorenzo, no conseguia deixar de se preocupar com a ideia de que perderia a sua to projetada vida de mulher independente, caso continuasse a morar ali na Siclia.
Sentiu-se aliviada quando Lorenzo concordou com ela em morarem em uma casa s deles e no, ali, na manso dos Martelli. Heather e Renato tambm tinham sua prpria vila, mas viviam hospedados no velho casaro.
No de todo conformada de no voltar aos Estados Unidos, Helen queria, pelo menos, seu cantinho particular. Ela e Lo-renzo procuraram uma casa nas redondezas e terminaram achando uma no muito grande, mas encantadora, perto do porto, com jardins maravilhosos e uma vista espetacular para o mar. Helen e Lorenzo alugaram imediatamente a casa e conseguiram que seu dono lhes dessem a opo de poder compr-la mais tarde.
	Podemos ficar com a moblia, tambm. Voc quer comprar uma nova ou ficamos com a velha?  Lorenzo lhe perguntou, antes de combinar tudo com o dono.
	Prefiro mveis novos, apesar de valorizar as antiguidades  Helen confessou, procurando ver a reao de Lorenzo.
	Graas a Deus  ele comentou aliviado.  Voc pode comear a procurar os mveis novos, pois tenho que embarcar para a Frana e vou ter de ficar l um bom tempo. Volto s speras de nosso casamento.
	Gostaria que escolhssemos os mveis juntos. Podemos deixar para fazer a compra depois do casamento  Helen props meio a contragosto.
	Como voc quiser, querida. E agora, d para me levar ao aeroporto?
	Voc est embarcando ainda hoje? Dou uma carona para voc, a caminho do servio.
	E Axel? Tem sido um chefe exigente demais?
	Ele  daqueles que adoram que os outros faam todo o servio. Mas no vamos falar nisso. Vou sentir saudade com voc longe  Helen reclamou, abraando Lorenzo.
O casamento fora marcado para uma data prxima, porque queriam aproveitar que o tempo estava bom.
	Logo vai esfriar  mamma Antonieta comentara.  Quero que a festa seja maravilhosa e vai ser mais fcil se o tempo estiver quente. Depois, vocs vo fazer uma viagem de barco e acho que Helen deve conhecer a Siclia com o tempo bom.
Helen preferia ter um noivado mais longo para conhecer melhor Lorenzo, mas acabou concordando com a correria. Ningum ali entenderia o porqu de ela retardar o casamento. Afinal, o casal se amava e tinha at alugado uma casa.
Mais uma vez, a famlia estava organizando uma cerimnia de casamento e, como j acontecera antes, Helen nem precisou se afastar do trabalho para ajud-los.
Estava na poca do nascimento do filho de Bernardo e Angie, que se mudaram para a casa dos Martelli. Angie no teve de fechar seu consultrio, porque um de seus irmos veio da Inglaterra e como tambm era mdico ficou em seu lugar,
 noitinha, Helen ficava sabendo como haviam sido os preparativos do dia. Mamma Antonieta quis ajudar na escolha do vestido. Por isso escalou as melhores costureiras para fazer uma verdadeira obra de arte e insistiu em pagar todas as despesas.
Helen chegara a sugerir a Lorenzo que se casassem em uma cerimnia simples, em uma capela, por exemplo. Lorenzo a olhara horrorizado, como se fosse um sacrilgio tirar de sua me todo o prazer que ela estava sentindo em participar do casamento do filho caula.
Helen sentia vontade de chorar, s vezes, quando tomava conscincia de que era natural para os Martelli tomarem a deciso pelos outros.
	Gostaria que meu casamento fosse simples como foi o seu  Helen comentou com Angie.  Sem festa, sem tantos preparativos e com a cerimnia na igreja da vila.
	Voc tem razo  Angie concordou.  Esse casamento suntuoso na Catedral de Palermo assusta um pouco. E j foi contratado um coral famoso para cantar na cerimnia. Sem contar que no meu casamento, havia poucos convidados, enquanto no seu vai haver centenas.
	Minha famlia vem inteira  Helen comentou desanimada. Acho que vo at precisar fretar um avio de tanta gente. Fico at com inveja de voc, quando vejo suas fotos do casamento. Imagine que lindo se casar em uma igrejinha nas montanhas.
Angie se casara com um vestido de seda creme e um vu enfeitado de flores. Nada suntuoso como o vestido que mamma Antonieta escolhera para Helen. De convidados, s a famlia e alguns convidados.
	O que voc est pensando?  Angie perguntou-lhe, quando Helen ficou em silncio.
	Em como minha me deve estar se divertindo, s de lembrar que eu sempre dizia que nunca me casaria com um siciliano! E agora no s vou me casar com um siciliano, como vou morar na Siclia. Mame deve achar que agora estou agindo com bom senso.
Suspirou desejando que Lorenzo estivesse ali ao seu lado. Ele ainda estava na Frana e, como sempre, saindo-se muito bem nos negcios. Telefonava todos os dias para Helen, mas no voltaria antes de resolver tudo o que Renato lhe pedira.
Helen resolveu deixar tudo como estava, j que no tinha chance nenhuma de fazer valer a sua vontade. Seu chefe a presenteou com um enfeite para a casa nova e quis saber detalhes sobre a viagem de barco que Helen e Lorenzo fariam durante a lua-de-mel. Axel era um bom sujeito e Helen no podia ficar se queixando da vida. Iria se casar com o homem que amava e ainda tinha um emprego bom que lhe dava certa independncia.
Agora faltavam poucos dias para o casamento e Helen decidiu que queria passar algum tempo sozinha, cansada da algazarra da casa da sogra. Gostava de passear pelo porto e ficou olhando os barcos.
Estava to distrada que deu um encontro em uma moa que vinha em direo contrria. Helen quase perdeu o equilbrio e se assustou quando a moa caiu no cho derrubando todos os seus pacotes.
	Sinto muito. Voc se machucou?  perguntou ansiosa para a mocinha que se levantava esfregando os cotovelos e tirando a poeira da roupa.
	Estou bem, no foi nada.
	Voc  Sara, no ?  Helen indagou, reconhecendo a moa que trabalhara na manso dos Martelli.  Vamos tomar um caf e comer alguma coisa ali no bar  convidou.
Felizmente, ningum se machucara.
	Voc arranjou outro emprego? Percebi que sumiu da manso  Helen perguntou, querendo ser simptica.
	Fui demitida pela signora Heather. Ela sempre me detestou.
	Mas por qu? Voc fez alguma coisa errada?
	Eu sabia de uma coisa que no podia contar a signorina  Sara respondeu com ar de mistrio.
	Contar para mim? No entendo. Eles esto escondendo alguma coisa de mim?
	Por favor, signorina. No quero me meter em mais encrenca.
	Isso no vai acontecer.  Helen agora estava curiosa. 	Mas gostaria de que contasse o que .
	Mas ficar brava comigo, tambm  Sara falou temerosa.
	No vou ficar brava, no  Helen insistiu, porque agora queria descobrir que segredo andavam lhe escondendo. Seria algum comentrio que haviam feito dela?
	Bem,  que a signorina no sabe que o signor Lorenzo ia se casar com a signora Heather, mas no dia casamento ele sumiu. A mamma Antonieta arranjou o casamento entre Renato e Heather para salvar as aparncias.
	Isso no pode ser verdade. Se fosse, j teriam me dito. 	Helen estava chocada.
	Pois aconteceu. Iam se casar na Catedral de Palermo, a mesma que a signorina vai se casar.
	Mas  evidente que Heather e Renato amam.
	Pois foi um casamento arranjado.  Sara estava satisfeita por estar se vingando de Heather.  O signor Renato tem cime, porque sabe que a mulher e seu irmo ainda gostam um do outro. No ano passado...
	O que aconteceu?  Helen perguntou j meio desesperada.
	Ouvi a signora Heather falando ao telefone e indo se encontrar com o signor Lorenzo.
Helen levantou-se confusa e deixou a ex-empregada feliz por ter envenenado a vida da famlia .Martelli. Sara ria, enquanto ia devorando todos os doces que ainda estavam sobre a mesa. Estava vingada, ela pensou satisfeita.
Helen estava transtornada. Tudo havia acontecido no passado, no entanto no podia deixar de pensar no carinho que havia mesmo entre Heather e Lorenzo. Lembrou-se at de como ele chorara, quando nascera o filho do irmo e da cunhada. Quem sabe no estaria preocupado que alguma coisa de grave pudesse acontecer a Heather?
No conseguiu voltar para a casa dos Martelli e decidiu passar a noite na vila onde moraria com Lorenzo. Precisava ficar sozinha e pensar. Sua cabea doa e ela tinha de analisar tudo o que acabara de ouvir.
Lorenzo e Heather haviam estado apaixonados e planejado se casarem. E ele a abandonara no altar.
Talvez no fosse verdade. Por que ela ia acreditar to facilmente em uma empregada que fora despedida do emprego e podia, estar inventando toda aquela histria?
Se fosse verdade, Heather viera da Inglaterra para se casar com Lorenzo e no com Renato. Chegara  Siclia junto com a amiga Angie, que agora estava casada com Bernardo. Por que Lorenzo fugiria do casamento, se gostava de Heather? Eles pareciam se dar to bem.
Helen no sabia o que pensar, mas perdera a confiana em Lorenzo. Como poderia viver com algum em quem no confiava mais?
Quem sabe se Heather ainda amava Lorenzo, mesmo estando casada com Renato? Quem sabe tinham um caso?
Os pensamentos atormentavam Helen. Provavelmente, tudo isso era bobagem. Heather e Lorenzo se abraavam na frente de Renato, assim no devia haver nada de pecaminoso entre eles.
Lorenzo chorara quando nascera o sobrinho, porque era muito emotivo, pensou Helen, tentando encontrar respostas para o comportamento do noivo. Renato era mais controlado, mais frio.
Restava o fato de que Lorenzo deveria ter contado para ela que abandonara uma mulher no altar. E na mesma igreja onde ia se casar com Helen.
CAPITULO IX

Helen telefonou para Lorenzo que estava ainda na Frana, mas nas duas vezes que ligou, as ligaes tiveram que ser interrompidas, porque ele estava ocupado demais com os negcios.
Precisava saber se era verdade ou mentira a histria que a ex-empregada dos Martelli lhe contara. O assunto era srio demais para ser tratado por telefone, reconheceu. Assim, resolveu esperar a volta de Lorenzo.
Esse tempo de espera estava sendo difcil de aguentar. Helen ficava cada vez mais^ desconfiada de Heather, especialmente quando ela era gentil e amiga demais. Estaria fingindo amizade, para disfarar o caso que mantinha com Lorenzo? Cada palavra sua parecia suspeita.
A esperana que Helen tinha de poder conversar sobre o assunto com Lorenzo terminou dando em nada.
	No vou ter nenhum minutinho livre para voc antes do casamento  ele disse to logo desembarcou do avio que o trouxera da Frana.  Renato quer que eu faa mil coisas antes de partirmos para a lua-de-mel. Bem que eu gostaria de ficar sozinho com voc, mas isso  impossvel agora.
	Querido, por favor  ela implorou.  Precisamos mesmo conversar. E importante.
	No h nada to importante quanto nosso amor  Lorenzo respondeu, beijando-a rapidamente. Estava sendo charmoso, mas agora ela interpretava tudo o que ele dizia de uma forma diferente. Ele poderia no estar indo se encontrar com Renato, mas sim com Heather, comeou a pensar Helen agoniada.
Finalmente, o pai, a me, os irmos, tios e primos de Helen chegaram dos Estados Unidos, animadssimos com a perspectiva no s de visitarem a Siclia, como a de participarem do casamento que uniria duas famlias muito bem consideradas ali da ilha.
Alguns parentes mais prximos se hospedaram na manso, mas a maioria lotou os hotis da cidade. Todos estavam radiantes com o casamento, principalmente seus pais. As irms andavam boquiabertas de um lado para o outro, achando que Helen tinha tirado a sorte grande.
Se algum percebeu que ela estava nervosa, devia ter pensado que era coisa normal de noiva s vsperas do casamento.
Ela tinha que se acalmar, decidiu. Logo conversaria com Lorenzo e ele certamente desmentiria toda a histria da empregada. No podia ser verdade que ele tivesse trado o prprio irmo de quem gostava tanto. Se a tal empregada no inventara tudo, devia ter inventado grande parte da histria. Se de fato ele no fora  igreja no dia do prprio casamento, devia haver uma explicao lgica e aceitvel.
Lorenzo no parava em casa um minuto e ela andava pela casa como uma sonmbula.
	Querido...  ela tentou novamente.  Precisamos conversar. Onde voc est indo agora?
Os amigos haviam preparado uma festa de despedida de solteiro e estavam levando Lorenzo para l.
	Pode ficar sossegada, Elena  Renato brincou.  Se ele ficar muito bbado, ns o traremos para casa so e salvo.
E foi isso exatamente o que aconteceu. s duas horas da madrugada, foi Bernardo quem carregou Lorenzo escadas acima. Helen percebeu desesperada que no teria mesmo tempo de esclarecer suas dvidas antes do casamento.
Passou a noite acordada, tentando visualizar o futuro, mas s via um vazio pela frente. Quando comeou a pegar no sono s seis horas, a empregada a acordou, trazendo-lhe caf.
Chegara o dia de seu casamento!
Nem bem tomou o caf e escovou os dentes, o quarto de Helen foi invadido pelas mulheres da famlia, todas querendo ajudar a noiva nos ltimos preparativos.
O vestido de noiva era maravilhoso. Helen escolhera um tom meio prateado que destacava seus cabelos pretos e a pele morena. Parte do vestido era ricamente bordado com pedras preciosas e ela usaria uma tiara de diamantes segurando o vu.
No houve quem no suspirasse diante da beleza do vestido, mas Helen estava angustiada demais para aproveitar cada minuto daquele dia especial de sua vida.
A manh passou rapidamente e Helen procurou satisfazer todos os palpites que iam lhe dando. O banho foi  base de ervas aromticas que, segundo Heather, eram afrodisacas. Os cabelos foram lavados com um xampu especial e depois presos no alto da cabea, para facilitar a colocao da tiara e do vu.
Quando faltava pouco tempo para a cerimnia, ajudaram-na a pr o vestido e at Helen, mesmo agitada como estava, teve de reconhecer que parecia uma princesa.
Em poucas horas estaria casada, pensou.
	Onde est Lorenzo  ela perguntou desesperada.  Preciso falar com ele agora.
Houve uma gritaria pela sala.
	D azar o noivo ver voc antes do casamento usando este vestido  sua me foi logo dizendo com firmeza.
	Oh, mamma... Isso  superstio!
Bateram na porta e o pai de Helen entrou perguntando se a filha estava pronta.
	Ela quer ver Lorer^zo  a me reclamou.
	No pode fazer isso de jeito nenhum!  o pai exclamou horrorizado.
	Papai, eu preciso...
	Bobagem. Deixe essa conversa para depois, porque no vamos lhe fazer essa vontade.
	Quem sabe no d tanto azar assim...  a me sugeriu, ao observar a angstia de Helen.
	No  O pai encerrou a conversa e mamma Luzia acatou a vontade do marido, saindo da sala e indo para a igreja com as filhas menores.
Helen correu para a janela a tempo de ver Lorenzo entrar dentro de um carro que se dirigia para a igreja. Helen percebeu que o pai abraou-a, como que para acalm-la.
	Agora  sua vez, querida. Estou muito orgulhoso de lev-la ao altar.
Helen e o pai desceram juntos a grande escadaria da manso. Agora havia pouca gente na casa, somente alguns parentes que se apressavam para tomar seus carros e ir logo para a igreja.
Heather tambm descera a mesma escada para se casar com o mesmo homem, pensou Helen perturbada. Da outra vez, a noiva fora humilhada e tivera de voltar para a casa com o corao partido, motivo de riso de muita gente. Como Lorenzo pudera fazer tal coisa para Heather, se gostava tanto dela?
O carro nupcial aproximou-se de Palermo e tomou a rua Vittorio Emanuele, caminho que o levaria at a porta da catedral. Com ar de orgulho, Nicolo Angolini ajudou a filha a descer do carro e a levou at a entrada da igreja.
A porta de abriu e Helen pde ver que Lorenzo estava l no altar esperando por ela. Ele estava confiante e feliz por estar se casando com a mulher que amava.
Quando Helen se aproximou do altar, Lorenzo se antecipou querendo logo pegar sua mo.
A cerimnia comeou e Helen escutou emocionada o sacerdote falando.
	O Deus, que santificaste a unio conjugal desde o princpio, a fim de representar no vnculo nupcial o mistrio do Cristo e da Igreja, fazei que Elena e Lorenzo realizem em suas vidas o que na f vo receber.
Estava quase casada, pensou Helen, procurando deixar de lado as dvidas que a atormentavam e participar de todo o ritual do casamento. Finalmente ouviu .a voz de Lorenzo.
	Eu, Lorenzo Luigi, recebo voc, Elena, por minha mulher e te prometo ser fiel na alegria e na tristeza, na sade e na doena, na riqueza e na pobreza, amando-te e respeitando-te todos os dias de minha vida.
Agora chegara a vez de Helen falar. Lorenzo segurou sua mo bem firme e a olhou com amor.
	Eu, Elena, aceito voc, Lorenzo...  ela comeou como se estivesse em um sonho. Parou e tentou recomear.  Eu, Elena...  Ficou novamente em silncio e todos comearam a se olhar surpresos.
De repente, Helen percebeu que no conseguiria seguir adiante. Olhou para o noivo e falou:
	Sinto muito, Lorenzo. No posso...
	Tudo bem, carssima. Termine a frase e estaremos unidos para sempre.
Como ela poderia estar unida para sempre a um homem em quem no confiava?
No, no posso continuar  disse chorando e correu de sesperada pela passarela da catedral e procurando a sada.
Os convidados gritavam, alguns corriam atrs da noiva. Mamma Antonieta chorava nos braos do marido e os pais de Helen no sabiam o que fazer. Houve quem comentasse que aquilo no podia estar acontecendo de novo.
Helen conseguiu chegar at um dos carros e chamou um motorista. Podia ver Lorenzo se aproximando, correndo para alcan-la.
	Elena! Elena!
	No  ela soluou.  No sou Elena, sou Helen, Helen! Voc nunca entendeu a importncia disso.
Ela queria poder fugir dele, tirar aquele vestido de noiva" que no pertencia a ela, mas a uma estranha chamada Elena. Queria voltar a ser Helen e esquecer que fora enganada por um homem chamado Lorenzo Martelli.
	Mais depressa  pediu ao motorista que a olhava com interesse. No era todo dia que uma noiva fugia do altar.
Em poucos minutos, entrou na manso e jogou-se soluando sobre a cama. Ouviu passos e algum bateu na porta.
	Elena, o que aconteceu? Pelo amor de Deus, diga para mim  Lorenzo implorou.
	Agora no posso. Preciso de um momento s para mim.  Helen ainda soluava.
Tudo ficou em silncio. Depois, ela escutou passos descendo a escada e respirou aliviada. Um momento mais tarde, ela viu Lorenzo na sua sacada. Arranjara uma escada e conseguira subir at ali. Agora ameaava arrombar a janela, caso ela no a abrisse.
Helen no duvidou que ele agisse com violncia, to transtornado estava. Era um Lorenzo que ela no conhecia.
	O que aconteceu?  ele perguntou, dessa vez com voz mais baixa.  Voc perdeu o juzo?
	No, perdi o amor que sentia por voc  ela respondeu muito plida.
	Do que voc est falando?  ele sussurrou.
	Quem  voc?  Helen perguntou de repente.
	Voc sabe muito bem que sou o homem que a ama.
	No, pensei que conhecia aquele homem, mas percebi que era outro que lhe tomara o lugar. Um homem que faz 
coisas terrveis e as esconde com seu sorriso e que mente para a mulher que diz amar,  porque ele no se importa de fato com ela.
	No estou entendendo... Voc pode ser mais clara?
	Eu sei tudo sobre voc e Heather.
	No h nada entre eu e Heather, querida.
	Mas houve e voc no me contou nada. Vocs foram noivos e iam se casar, no iam? E voc a abandonou no altar.
	Ento voc resolveu fazer o mesmo comigo  ele gemeu.  O que est tentando fazer? Vingar-se em nome de todas as mulheres?
	No  nada disso. Tentei conversar, mas voc no tinha tempo algum para mim.
	Isso porque havia uma infinidade de coisas para fazer antes do casamento, Helen.
	Voc devia ter me contado sobre seu romance com Heather.
	Quando? No nosso primeiro encontro, quando voc j me acusada em ser infiel?
	E tive agora a confirmao, no ?
	Naquela hora ns ramos apenas amigos. Mais tarde, pensei que no precisava falar nada. Ns nos amvamos e isso para mim pareceu ser o suficiente.
	Voc no me contou uma coisa que'todos sabem, s eu fiz o papel de boba. Devo ter sido motivo de riso. Naturalmente, voc achou que eu, como siciliana, devia estar preparada para aceitar a infidelidade do homem que amava.
	Pare de falar bobagem.
	No  bobagem. Pare de me chamar de preconceituosa. O que digo sobre os sicilianos acontece de verdade.
	Est bem, devia ter lhe contado do meu noivado com Heather, mas j fazia tanto tempo que acabara...
	Apenas um pouco mais de um ano!
	Era coisa passada. Depois, Heather e eu no nos amvamos de fato  ele comeou a dizer.
	Vocs devem ter se amado para resolverem se casar.
Lorenzo passou as mos nos cabelos em um gesto de desespero.
	Achei que gostava dela, mas estava errado.
	Ah, mudou de ideia justo no dia do casamento, no ?
	O casamento teria sido um grande erro.
	Ela acha que vocs continuam gostando um do outro!  Helen exclamou.
	Ela quem?
	Sara, a empregada que foi despedida, porque sabia de mais. Ela inclusive escutou um telefonema entre voc e Heather
marcando um encontro. E isso quando j estava casada com Renato.
	Foi Sara quem disse isso? Dio Mio!  Lorenzo ergueu os braos, num gesto de desespero.  Heather a despediu por
que ela estava roubando. Deve ter adorado se vingar falando essas coisas para voc.
	E o que ela contou so mentiras? Voc no ia se casar com Heather e a deixou sozinha no altar?
	Sim, deixei e me envergonho disso, mas posso me explicar. H coisas que voc precisa saber.
	Agora  muito tarde para revelaes. Devia ter me contado tudo antes que eu viesse a saber por outra pessoa.
	Estava somente pensando em voc. Lorenzo estava completamente abatido.  Acreditei que nosso amor era to especial que superaria qualquer problema que encontrasse pela frente.	
Helen tentou conter as lgrimas. Comeava a se sentir fraca, mas no podia deixar que Lorenzo a convencesse de que ela agira de maneira errada.
	Escute-me, querida. Estava errado e sinto muito. Eu a amo mais do que qualquer coisa no mundo. No  tarde para nos unirmos. Vamos voltar  igreja e nos casarmos. As pessoas podem achar isso estranho, mas isso no importa. Teremos o amor um do outro.
	Pare com isso.  Helen chorava e tentava se libertar dos braos dele.  Voc fala de amor, mas vale a pena acreditar nele? Acreditou que amava Heather e a abandonou no altar. Como vou saber que voc no vai mudar de ideia novamente, logo aps o casamento, e me abandonar?
	Tome cuidado com o que est dizendo  ele murmurou.
	Por qu? Devo ficar com medo de voc?
	No. E que talvez devesse ficar com medo de si prpria. Voc est dizendo coisas que tornaro impossveis que venha mos a ficar juntos algum dia.
	No vamos ficar juntos nunca. Cometi um engano, felizmente me corrigi a tempo.
	No fale assim, Elena. Deixe que fique ainda alguma esperana para ns.
	No me chame de Elena nunca mais. Ela  uma pessoa que voc manipulava, mas eu sou Helen, sabe? Tudo sobre nosso casamento parece se encaixar agora. Eu  que no estava com meus olhos bem abertos.
	O que voc quer dizer com isso?
	Foi voc quem conseguiu que me dessem o emprego aqui no hotel de Palermo, no ?
	Confesso que telefonei para Erik e sugeri que voc poderia trabalhar para o Elroy daqui. No forcei nada. Ele apenas achou a ideia boa.
	Mas voc fez isso pare que eu ficasse na Siclia.
	Achei que voc estava querendo ficar, mas que partiria se no tivesse um emprego. Tentei arrumar as coisas da melhor forma possvel.
	Mentira, voc queria poder me dominar como se eu fosse um fantoche.
	Eu estava disposto a fazer qualquer coisa para convenc-la a se casar comigo.
	E logo pensaria em um jeito de m fazer largar o emprego e ficar sendo dona de casa em tempo integral, no ?
	Voc realmente acredita que eu seria capaz disso?
	No sei. Como lhe disse, eu no o conheo mais. Voc no pode dizer que Sara mentiu ao contar sobre seu caso com Heather. Como vou acreditar que voc no traiu seu irmo?
	Ento  isso! Est sugerindo que eu e Heather somos amantes?
	Sara disse que ouviu um telefonema em que Heather combinava um encontro secreto com voc.
Lorenzo ficou em silncio, apenas olhando para ela. De repente, Helen pensou que talvez estivesse errada, pois ele parecia ter sido atingido por uma arma mortal. Tentou entender o que seu olhar dizia. Talvez tivesse agora perdido toda a esperana de t-la de volta, ou, quem sabe desistira dela.
	Se voc acha que fui capaz de trair meu irmo, ento fez bem em no se casar comigo.    
	Tentei falar com voc tantas vezes!
	Falar comigo, achando que eu tinha trado meu irmo e dormido com a mulher dele? Tem certeza de que temos alguma coisa cara conversar?  Lorenzo riu amargamente.
	, no temos nada mesmo.
Ele a olhou com uma expresso de horror.
	Voc nunca acreditou que eu a amasse de verdade, no ? Desde que a conheci, eu a amei, mesmo quando tentava negar isso para mim mesmo. Tentei ser apenas amigo, mas a queria para minha esposa. Pensava em voc todo o tempo, at
quando estava trabalhando. Fiquei meio louco, quando voltei para a Itlia e a deixei em Nova York.
Lorenzo passou a mo pelos olhos que estavam brilhantes de lgrimas.
	Morria de cime de Erik  prosseguiu. Fiquei com medo de que voc se casasse com ele. Sou siciliano e no podia imaginar que voc fosse de outro homem. Nunca amei uma mulher como amei voc e nunca amarei ningum mais no futuro. Seria bem
melhor se nunca nos tivssemos conhecido  ele murmurou.
Naquele momento, muitas pessoas entraram no quarto e Nicolo Angolini gritava cp^no louco.
	Como voc pode fazer isso?  berrou.  Minha prpria filha agindo como uma louca.
	Papai, sinto muito  Helen tentou dizer.
	Voc desonrou nossa famlia!
	Espere...  Lorenzo interrompeu-o.
	Peo desculpas pelo comportamento de minha filha, Lorenzo. Estou envergonhado dela.
	Elena no tem culpa de nada  Lorenzo declarou, olhando firme nos olhos do pai de Helen.  Ela apenas mudou de ideia e tinha o direito de fazer isso. Na verdade, devemos ficar felizes por ela ter tido essa coragem.
Helen teve de encostar-se em uma cadeira para no desmaiar. Lorenzo a estava defendendo, mesmo depois de tudo o que ela lhe fizera.
No devia ser uma surpresa. Afinal, ela o vira ser generoso tantas vezes. Esse pensamento lhe trouxe lgrimas nos olhos.
	Voc  mais generoso do que ela merece  o pai de Helen falou.  No h como perdoar uma mulher que faz o que ela lhe fez, Lorenzo.
	Ela apenas repetiu um gesto que fiz tempos atrs. Na mesma igreja, inclusive.
	Aquilo foi diferente.
	No foi no. Nunca poderei culpar Elena pelo que fez. Sou o nico culpado.
Ficou em silncio por alguns minutos e depois saiu do quarto. Helen jogou-se na cama e chorou novamente. Sua me estava plida e tentou acalm-la.
	No chore assim, filha.  Com um gesto, pediu que todos sassem do quarto e deixassem Helen sozinha.
Mais tarde, foi o prprio Lorenzo quem retornou ao quarto e pediu para falar com ela. Mamma Antonieta, que seguira o filho entristecida com sua dor, disse que ia providenciar um caf e sanduches.
	No quero nada  Helen informou, achando um absurdo ter fome em uma hora daquelas.
	Precisa de um caf forte, sim. E tambm comer alguma coisa. Agora sente-se e me escute  Lorenzo pediu em um tom de voz triste, mas firme.
Helen pensou em contrari-lo, mas acabou por concordar com o pedido.

CAPITULO X

Victor levou Antonieta para fora do quarto e deixou Helen e Lorenzo sozinhos.
	Preciso que voc me escute, Helen.  Ele usava um tom de voz que ela no conhecia. Parecia a voz de um homem mais velho, mais srio e no a de um rapaz brincalho que sempre vivera despreocupado.  De alguma forma, temos que sair dessa situao.
	Ns? Sou eu a responsvel por esse escndalo. Vou tentar resolver a situao sozinha.
	No vai conseguir s% no a ajudarmos.
	O que voc fez, depois que abandonou Heather no altar?  Helen perguntou francamente.  Ah, desculpe-me. No de via ter tocado de novo nesse assunto.
	E uma pergunta justa. Eu sumi por uns tempos. Voc  mais corajosa que eu e ficou, sem medo de enfrentar a fria geral.
	E, sou mesmo uma herona  comentou com amargura.
	Sim, voc . Voc foi pressionada demais, tanto pela sua como por minha famlia. Eu a forcei a aceitar meu pedido de casamento e voc nem teve tempo de decidir se queria ou no ficar comigo. Como no confiava, devia ter tido chance de cancelar nosso compromisso e no teve nenhuma. No posso dizer que estou feliz agora, mas voc agiu certo.
	Por que continua a me defender?
	O que eu devia fazer? Escandalizar-me porque algum foi abandonado no altar? Justo eu, que mereo esse castigo?
	Mas voc  homem, lembre-se de que est na Siclia. Aqui s as mulheres so abandonadas.
	Perdoe-me, Helen, por todas as bobagens que falei, especialmente sobre os sicilianos.  Lorenzo se afastou para que ela no visse sua expresso.
Era inegvel que ele sofria demais. Queria agora aparentar calma, ser compreensivo, mas estava difcil fingir o que no sentia.
	Talvez voc queira se trocar, tirar este vestido...
Helen olhou em volta e viu todas as malas que preparara para a lua-de-mel. No queria abri-las, naquele momento. Por sorte, encontrou uma jeans e uma camiseta que haviam ficado de fora.
Decidiu comer alguma coisa, lembrando-se de que sua me sempre oferecia comida, quando estavam enfrentando algum problema. Como se a comida pudesse resolver o seu drama...
Pegou um sanduche e tentou com-lo. Bebeu tambm um caf, bem adoado, porque esse novo Lorenzo que estava ao seu lado entendia que ela estava em estado de choque at maior do que o que ele passava e colocara muito acar na xcara.
	Voc no vai tomar caf?  Helen notou que ele no se serviu.
	No, no quero agora.
Mais tarde, ele beberia algo forte para se consolar. Helen ouviu vozes altas no andar de baixo. Ningum estava feliz e ela era a culpada. Devia pedir desculpas a todos. Aos poucos, percebia a enormidade do seu ato e suas consequncias inevitveis.
	Oh, meu Deus! O que eu fiz?
	O que foi?  Lorenzo perguntou solcito.
	E a festa e toda a comida que foi preparada, ningum vai comer nada? E o bolo de casamento?
	No se preocupe. Isso no chega a ser uma novidade para minha famlia  comentou com amargura.
	Como voc consegue brincar com um assunto to srio?
	Melhor do que ficar chorando. Como voc queria que eu agisse, Helen? Como um siciliano, com uma faca, ameaando voc e sua famlia e jurando vingana?  isso que voc pensa que os sicilianos fazem?  Ele parou pensativo, depois prosseguiu:  Sabe, parte de mim queria agir assim, mas no  do meu estilo e nunca vou conseguir ser violento.
Helen fizera o que achara certo, mas agora lhe doa v-lo sofrer.
	Ento, o que vamos fazer?  ele perguntou finalmente.
	Quanto mais cedo eu partir da Siclia, melhor para todos.
	No  isso o que voc deve fazer. No deve voltar a Nova York agora.
	No posso ficar aqui. No depois do que fiz.
	 isso exatamente o que tem de fazer. Por que deveria fugir como se tivesse feito algo errado, quando no fez? Deve continuar seu trabalho aqui, longe de sua famlia que estar nervosa demais com os acontecimentos e poder mago-la.
Helen olhou-o surpresa. Lorenzo colocava em palavras a ponta de medo que ela sentia quando pensava em enfrentar seu pai e sua me e ter de enfrentar o olhar de todos os parentes e vizinhos. No estava preparada para voltar para Nova York.
	Voc tem gostado do que faz em Palermo. Continue cem esse emprego por uns tempos, at tudo se acalmar  Lorenzo insistiu.
	Voc est tentando me proteger? Confesse isso.
	No importa quais sejam minhas intenes. Voc sabe que estou certo e que no aguentaria as crticas de sua famlia. No pense que vou forar minha presena junto de voc. No vou aparecer nem lhe causar nenhum problema. Se quiser, podemos continuar a ser amigos.
	Depois de tudo que passou por minha causa?
	No importa o que estou sentindo. Voc sabe que tenho razo. Agi errado com voc e agora me deixe consertar as coisas. No se esquea de que Heather e eu continuamos amigos, depois de tudo o que nos aconteceu. Somos como dois irmos. Por favor, Helen, fique na Siclia.
Lorenzo estava certo. S de pensar em voltar para os Estados Unidos, depois de tudo o que lhe acontecera, estremecia. Seu futuro parecia um quadro em branco e tinha que parar para decidir o que fazer.
	Nem sei o que vou fazer  ela disse com desespero.
	Pois eu sei. Deve seguir o meu conselho amigo.  Ele pegou as mos de Helen e ela sentiu como se estivesse viva novamente.  Vou lev-la para Palermo, agora. Pode ficar hospedada em um hotel. Sairemos pelos fundos, para que voc no precise passar pelos convidados. Mandarei entregar sua bagagem depois.
Helen olhou-o agradecida.
	No se precisa se preocupar. Tudo vai dar certo, voc vai ver.
Helen estava indo muito bem no emprego, ocupando um cargo de confiana dentro do setor de administrao do Hotel Elroy de Palermo.
Axel Roderick estava satisfeito com o trabalho dela e mandara que mobiliassem seu escritrio com mveis antigos e peas caras. Helen no tinha com que se queixar.
O hotel estava prestes a ser inaugurado e ela andava trabalhando mais de doze horas por dia para que tudo sasse perfeito.
	Helen, estamos lucrando com aquele seu noivado com o jovem Martelli. A famlia fez um contrato de nos fornecer seus produtos por preos abaixo da tabela.
Lorenzo estava por detrs de tudo isso, procurando lhe facilitar a vida e ajud-la no seu trabalho. Ou estaria querendo impression-la. Helen no queria pensar mal dele, mas ainda lhe restavam algumas dvidas.
Heather foi procur-la no hotel. Fazia dois meses que abandonara Lorenzo no altar e era a primeira vez que voltava a falar com Heather. Ela tinha trazido junto seu beb e Helen se encantou com o pequeno Vittorio.
	Voc soube que Angie teve uma menina?  Heather perguntou-lhe depois de lhe mostrar o filho.
	Sim, li no jornal. Bernardo ficou desapontado porque nas ceu menina?
	Voc deve estar brincando. Bernardo est nas nuvens, no faz nada alm de exibir a filha para todo mundo.
	Mas Bernardo sempre foi to reservado!
	Era. Basta a menina olhar para ele que se derrete todo.  maravilhoso ver o que a felicidade pode fazer para um homem. Veja Renato, por exemplo. Vive escapando do trabalho s para brincar com Vittorio. E quando se encontra com o irmo, s falam dos bebs. Bernardo at decidiu, adotar o sobrenome Martelli e isso deixou mamma Antonieta muito feliz.
Heather parou por um momento e ninou o pequeno Vittorio.
	Mamma gostou de receber uma carta sua, tambm.
	Tinha que me desculpar por lhe ter dado um desgosto to grande.
	Lorenzo explicou tudo para ela e ningum ficou sentido com voc. Mamma ficou contente, quando soube que eu vinha lhe mostrar o nen. Fica preocupada por voc estar sozinha e espera que volte para nossa casa.
	Depois de tudo o que aconteceu, como eu poderia voltar?
	No precisa se preocupar com Lorenzo. Ele no est mais aqui. Foi para a Espanha.
	Como ele est?
	Saindo-se muito bem nos negcios.  um profissional de primeira. S que em assuntos pessoais, comete seus erros.
Helen apenas concordou com um gesto de cabea, sem saber bem o que dizer.
	Preciso conversar com voc, Helen. Lorenzo me contou o motivo que a levou a abandon-lo. Disse tambm que no lhe explicou como as coisas aconteceram de verdade. Voc tem de m acreditar. Sara mentiu em muita coisa do que disse para voc.	'
	Mas Lorenzo no desmentiu nada._
	Veja, tenho de lhe contar tudo. Nunca estivemos apaixonados, apenas nos dvamos bem. Renato queria que a famlia tivesse um herdeiro e no pensava em se casar. Deu um jeito de Lorenzo concordar em assumir essa responsabilidade. Lorenzo sempre concordava com as ideias do irmo e resolvemos nos casar. Havamos nos conhecido na Inglaterra e vim para a Siclia com essa ideia. No entanto, mal conheci Renato, ns dois nos apaixonamos. No sabamos o que fazer e como faltavam s alguns dias para o casamento, no tivemos coragem de cancel-lo.
Lorenzo descobriu tudo e fingiu me abandonar, facilitando as coisas para Renato e eu. Levou toda a culpa.
	Por que ele no me contou isso?
	Deve ter ficado magoado, porque voc acreditou na verso de Sara. O que mais ela lhe disse?
	Que voc foi ao encontro de Lorenzo em uma noite em que ele a chamou ao telefone. Parecia um encontro s escondidas.
	Tive que ir. Ele me chamou em pnico para dizer que fora preso por estar dirigindo em alta velocidade e no queria que a famlia soubesse. O problema  que enfrentou o guarda que o multou e terminou na cadeia. Teve de dormir l uma noite. Fui ajud-lo.
	Oh, meu Deus! Pensei to mal de vocs dois. Fui uma tola, mas ele deveria ter me contado tudo no dia do casamento.
Talvez tivssemos voltado para a igreja, mesmo que isso parecesse estranho aos convidados.
	Como lhe disse, ele queria que voc confiasse nele. Foi tolo, tambm. Devia ter lhe contado tudo, esclarecido o caso. Veja, somos mais que amigos.  como se fssemos irmos e no cunhados.
Helen sorriu tristemente. Desde que haviam se separado, ela no tinha encontrado Lorenzo. Ele a levara at o hotel, dissera adeus e, na manh seguinte, algum lhe trouxera as malas. Desde ento, nem lhe telefonara. Tambm, o que ela poderia esperar, depois do que lhe fizera? Tinha de aguentar as consequncias de seu erro.
O Natal estava chegando e no havia poca do ano mais triste para os que estavam longe da famlia. Ela ainda no estava preparada para voltar aos Estados Unidos e apenas conversava com a me por telefone, dizendo que tudo ia muito bem no trabalho.
Sua me andava muito reservada e no tocara nenhuma vez no que Helen fizera no dia do casamento. Mamma Luzia devia andar em contato com mamma Antonieta. Helen tinha certeza disso.
J que estava sozinha, procurou se envolver mais e mais nos preparativos da inaugurao do novo hotel que estava marcada para comeo de fevereiro. Estavam planejando algo es-petacular e ainda havia muita coisa a fazer.
Algumas vezes, bem tarde da noite, Helen fechava seu escritrio e ia para o apartamento que alugara. Ficava escutando seus passos ecoarem no silncio, pensando em como sua vida mudara dos tempos de estudante, quando apenas vivia sonhando com seu futuro de mulher independente e bem-sucedida profissionalmente.
Ela tinha conseguido sucesso no trabalho. E poder, autoridade e um salrio bem alto. Dava ordens, suas exigncias eram obedecidas imediatamente. Tinha tudo o que planejara naquele tempo. E no estava feliz, porque perdera Lorenzo.
Ele lhe repetira inmeras vezes que a amava, que pertenciam um ao outro, que a queria somente para si. Depois, magoado, dissera que preferia que nunca tivessem se conhecido.
Mesmo assim, havia se oferecido para ser seu amigo, mas amizade nunca seria suficiente para os dois. E ela repudiara esse oferecimento, sem saber que estivera enganada sobre ele.
Bem perto do Natal, ela recebeu uma visita inesperada. Era Bernardo que a procurava.
	Helen, que bom ver voc!  exclamou abraando-a sem acanhamento.
	Como vai?  ela perguntou estranhando sua visita.
	Estou na melhor fase de minha vida. Preciso lhe contar as novidades.
	Parabns pelo beb! Soube que  uma linda menina.
	Voc no a conhece ainda, no ? Quero que venha para Montedoro agora mesmo.
	Bernardo, agora no posso. Estou em hora de trabalho.
	Pois tire uma folga que eu a trago de volta bem depressa.
Ela no conseguiu faz-lo mudar de ideia e terminou achando que seria bom rever Angie, com quem sempre se dera bem.
Quando se aproximavam de Montedoro, a paisagem montanhosa comeou a aparecer.
Havia neve por toda parte e ela sentiu-se mesmo na poca natalina. No nevava no resto da ilha, a no ser nas montanhas. Helen ficou satisfeita por ter vindo at aquele lugar lindo.
Logo visualizou a velha casa onde Bernardo e Angie moravam.
	Temos visita  Bernardo gritou do carro, quando viu que Angie estava na janela.
A recepo foi calorosa. Angie estava feliz em rever Helen e sorrindo estranhamente, como se estivesse escondendo algum segredo.
	Cheguei em hora errada?  Helen perguntou.
No podia ter escolhido hora melhor. Entre, entre.
Ela levou Helen para dentro da casa. Sentado junto da la reira, estava Lorenzo segurando o beb.
	Como vai, Helen?
Helen no conseguia sequer responder ao seu cumprimento. Ficou olhando a cena de carinho que tinha diante de si e tinha de reconhecer que nunca vira nada to bonito.
	Como vai?  Lorenzo perguntou novamente.
	Pensei que voc estivesse na Espanha.
	Voltei ontem. Tinha de vir visitar minha sobrinha querida.
	Encontrei Bernardo e ele insistiu que eu viesse conhecer seu beb.  Ela tentava manter uma conversa normal.
	A nen  linda. Venha ver por si mesma.
Ele indicou-lhe o sof e quando Helen se sentou, colocou a menininha em seu colo.
	Sabe lidar com bebs?  perguntou.
	E voc vem me perguntar isso? Ajudei a criar trs irms!
	Tambm adoro lidar com crianas. Venho praticando por anos.
Sorriram um para o outro.
	Qual o nome da menina?
	Bem, o assunto ainda est em discusso. Escolhemos vrios nomes e ainda no escolhemos um s. Temos Antonieta, Lenora, Marta e Anna. Mas temos de escolher logo, porque ela vai ser batizada.
Angie entrou na sala trazendo caf e um bolo. Lorenzo recusou, dizendo que j comera e tirou o beb dos braos de Helen. Ficou com o beb no colo, adorando lidar com uma criana to pequena.
Lorenzo havia emagrecido e parecia tenso. Estava bronzeado pelo sol da Espanha, mas deixara de exibir aquele seu sorriso meio infantil que cativava as pessoas. Helen percebeu que ele devia estar triste e tudo por sua culpa.
	Helen?
Ela deixou os pensamentos de lado e voltou-se para Lorenzo.
	Eu queria saber como vo os preparativos para a inaugurao do hotel. Mas voc parece distrada.
	Deve ser o calor da lareira. O hotel vai indo bem e tenho trabalhado como louca para que tudo esteja pronto para a inaugurao. E como vo indo os negcios na Espanha?
	Muito bem. At Renato est satisfeito comigo e vive me elogiando.
Conversaram trivialidades por algum tempo. Tinham tantas coisas importantes para dizer um ao outro, mas evitavam tocar em um assunto mais pessoal. Ele no devia t-la perdoado, pensou Helen tristemente.
	Tenho que voltar ao hotel  resolveu dizer.
	Posso lhe dar uma carona?  Lorenzo prontificou-se, colocando o beb nos braos de Angie.
Helen hesitou, mas seria melhor deixar que Bernardo ficasse em casa, porque se fosse lev-la ao hotel, teria de voltar em meio da neve.
	Est bem  terminou concordando.
Angie e Bernardo ficaram olhando o casal ir embora. Acenaram alegremente.
	Foi bom voc trazer Helen aqui hoje  Angie comentou.  Voc fez de propsito, sabendo que Lorenzo estaria nos visitando?
	Bem, a ideia passou pela minha cabea e me pareceu bastante boa.
	Voc  terrvel, querido.
	Voc acha que eles podem voltar a fazer as pazes?
	Vale a tentativa, Bernardo. Vamos torcer para que isso acontea.
Por um certo tempo, Lorenzo dirigiu em silncio, pois estava em uma rea montanhosa. Algumas vezes, Helen arriscava dar uma olhadinha e matar a saudade daquele rosto to atraente.
Percebia claramente que ali estava um homem triste que perdera a alegria natural que sempre tivera antes. A tristeza parecia fazer parte dele agora.
Helen resolveu puxar conversa.
	No costumo tirar a tarde de folga. Temos tanto trabalho l no hotel.
	Como vo os planos para a grande inaugurao?  ele perguntou polidamente.
	No muito bem. Ainda no consegui fazer um programa que me agradasse plenamente.
	Por que voc no pede ajuda para aquele seu amigo Frank, l de Nova York? Ele pode lhe arranjar uma grande atrao musical ou algum ligado ao cinema. Isso pode contar pontos para o hotel.
	Eu tinha me esquecido do Frank!  ela exclamou animada.  Vou ligar para ele imediatamente.
	Quem sabe vocs comemoram o aniversrio de alguma celebridade na inaugurao.
	Pelo que vejo, preciso de voc para me dar essas boas ideias. De repente, Helen percebeu que ele entrara em um desvio da estrada.  Voc entrou errado, Lorenzo. Esse no  o caminho para Palermo.
	 a entrada certa para onde estamos indo  ele disse calmamente.  Quero lev-la a um lugar, onde possamos conversar.
Ele estacionou o carro perto de um caf, em uma praa toda cheia de flores. A neve ficara para trs, l nas montanhas.
	O que voc quer conversar comigo?  Helen perguntou, quando o garom acabou de lhes servir biscoitos de amndoas e prosecco, o vinho leve que os italianos costumam tomar em todas as ocasies, e se afastou.
	 sobre o Natal. Mamma gostaria de que voc passasse as festas l em casa.
	No fica bem, Lorenzo.
	Voc no brigou com minha famlia, mas enrugo, Helen.
	No briguei com voc, Lorenzo. Apenas no nos casamos.
	Pois acho que fui eu o errado e quero consertar o meu erro.
	Heather me procurou e me contou o que realmente aconteceu entre vocs.
	Agora isso no importa. Heather tambm me reprovou, por no lhe ter contado toda a verdade, no entanto, o fato mais importante  que voc no confiava em mim. Por isso a perdi.
	Bem, queria que voc soubesse que descobri como as coisas aconteceram de fato.
	Voc me conhece, Helen. Vivo sempre o momento presente. No fico detido no passado nem fao planos para o futuro. Por isso no achei relevante lhe contar o que acontecera antes em minha vida. Meu jeito de ser  reprovvel, por isso estou sofrendo as consequncias de meus erros.
	Voc no  assim, Lorenzo.
	Andei me analisando ultimamente e no gostei das concluses que tirei.
	Nem pense em mudar seu jeito de ser!  Helen exclamou com sinceridade.
Algum comeou a tocar um acordeo na pracinha e alguns casais foram danar. Lorenzo se levantou e a puxou para l.
	No podemos danar  ela falou escandalizada, vendo que pessoas estavam olhando para os dois, reconhecendo-a como a noiva que abandonara o noivo no altar. Havia um pequeno grupo que parecia no desgrudar os olhos deles.
	Tente me deter  ele disse rindo.
Helen estava novamente nos braos de Lorenzo, como se nunca tivesse sado deles.
	Voc no liga que aqueles rapazes esto rindo de voc, porque foi abandonado e mesmo assim est comigo? Eles devem pensar que eu o troquei por outro homem e voc no tem orgulho.
	Conheo aqueles rapazes da escola. So ignorantes e no tm o que fazer. Por que deveria me preocupar com o que eles pensam?
Lorenzo perdera seu jeito de garoto, seu gnio estourado. Agia agora como se fosse bem mais velho, mais vivido. Helen sentia falta do antigo Lorenzo e seus olhos se encheram de lgrimas.
	No chore  ele disse preocupado.  O que as pessoas iro pensar?  acrescentou ironicamente.
	Vo pensar que me arrependi e quero voc de volta, mas recebi um fora.
	Deixe isso para l e aja como se tudo fosse normal entre ns.
	O que significa normal para ns, Lorenzo? Quando nos conhecemos, fingamos um para o outro e dizamos que ramos apenas amigos.
	E eu tinha de tomar banho frio quando voltava para o hotel.  Lorenzo riu lembrando-se daquele tempo.
	Nunca fomos totalmente sinceros um com o outro. Deveramos ter contado o que sentamos sem esconder nada.
	Talvez seja tempo de comearmos a fazer isso agora, Helen.
Ele aproximara seu rosto do dela, como que esperando por sua reao.
	No sei se seria sensato...  Helen hesitou.
	Seria pelo menos honesto. Gostaria que tentssemos...
	Mas voc disse...
	O que eu disse?  Lorenzo sussurrou junto ao ouvido dela.
	No me lembro mais.
Seus lbios estavam prximos um do outro e uma sensao de felicidade percorreu o seu corpo. O dia parecia brilhante de repente. Ela no estava mais triste e parecia ter recebido, de volta aquilo que era importante em sua vida. No podia perder a nova chance que estava tendo.
	Vamos para nossa vila, aquela que alugamos  ele murmurou com voz rouca.  Temos que conversar a ss.
	Est bem  Helen concordou.
Quando voltaram para a mesa para Helen pegar sua bolsa e Lorenzo pagar a conta, encontraram um desenho que mostrava uma mulher puxando um poodle, s que o anima! tinha o rosto de Lorenzo.
	 isso o que pensam de voc, porque est agindo de forma civilizada!  Helen estava furiosa.  Depois voc vivia dizendo que eu  que tinha mania de pensar mal dos sicilianos.
	No ligue para o que eles pensam.
Helen olhou para os rapazes que continuavam a rir alto e fazer piadas.
	No vou me envolver mais nisso. amos nos casar e fiz a bobagem de acreditar em uma histria mentirosa que me afastou de voc. Agora nosso momento passou. Diga  sua me que agradeo o seu convite, porm no vou passar o Natal com vocs. No podemos nos ver mais, Lorenzo.
Ele no tentou faz-la mudar de ideia. Apenas picou o desenho em mil pedaos e olhou-a caminhar para o carro com lgrimas nos olhos.
CAPTULO XI

A festa de inaugurao do Hotel Elroy-Palermo foi realmente um espetculo a parte. Helen conseguiu trazer um famoso casal de artistas de Hollywood para desatar a fita comemorativa e depois celebrar a festa de seu casamento no salo nobre do hotel. Jornalistas e fotgrafos de vrias partes do mundo estavam presentes, o que garantia publicidade gratuita para o Elroy.
	Bom trabalho!  Lorenzo cumprimentou Helen.
	No sabia que voc viria aqui hoje.
	Escapei de Renato e aproveitei a festa para v-la, j que voc tem me evitado.
	No tenho, no  Helen mentiu.
	Deveria ter passado o Natal conosco. Pena que tambm no apareceu no batizado da filhinha de Angie e Bernardo. Escolhemos o nome Marta para ela, uma homenagem  me de Bernardo.
	No podia ir, Lorenzo. No fica bem comparecer em festas de sua famlia.
	Isso tudo passou. Todos querem que voc continue nossa amiga.
	Lorenzo, voc se esqueceu dos fofoqueiros do lugar? Continuam me olhando e fazendo piadinhas quando ando na rua.
	Desculpe-me, Helen. Decepcionei voc, no ?
Antes que ela pudesse responder, vrias pessoas rodearam-na e ela teve de se afastar de Lorenzo. Mais tarde, quando o procurou com os olhos, no mais o viu.
No dia seguinte, mamma Antonieta telefonou. Falaram sobre assuntos em geral e Helen comentou que achara Lorenzo meio estranho.
	Ele tem estado assim, ultimamente.  A me de Lorenzo estava bastante preocupada.
	No tem me chamado mais de Elena. Antes, eu ficava brava quando ele me chamava desse jeito. Era quando me amava. No deve me amar mais.
	No  isso o que voc queria?  mamma Antonieta perguntou francamente.
	S quando estava com raiva e pensava mal dele. Depois soube como as coisas haviam acontecido de verdade e me arrependi por no ter confiado nele. Mas j era tarde.
	Voc sabia que ele no mora mais conosco?  Mamma Antonieta olhava fixamente para Helen.
	Para onde ele foi?
	Decidiu morar na vila que vocs alugaram antes do casamento.
	Vive l sozinho?
	No sei de nada sobre outra mulher, minha filha.
Helen ficou imaginando Lorenzo sozinho na casa que seria o ninho de amor dos dois. Passeando pelos jardins sozinho, indo dormir sozinho. Doa imagin-lo assim.
	Voc nunca confiou nele, no , Helen?
	Cheguei a pensar mal dele, sim. Mas antes eu sabia prever o que ele iria fazer, agora no o entendo mais.
	Voc devia ficar feliz com o comportamento dele. Na nossa terra, quando uma mulher ofende a honra de um homem, ele se vinga. Lorenzo, ao contrrio, a defende, quer ajud-la. Mesmo com tanta gente caoando dele.
	As pessoas no deviam se envolver em nossas vidas.
	 verdade. No entanto, voc deveria valorizar um homem que mostra a todos que o que mais lhe importa na vida  uma mulher, mesmo que ela o tenha magoado.
	Receio que ele no me ame mais, mamma.
	Se ele no a amasse, no agiria da forma que age, aceitando sua humilhao sem se revoltar. No duvide de seus sentimentos. Veja bem o que voc sente por ele;
	Primeiro eu o amava, apesar de no confiar totalmente nele. Percebo que ele amadureceu e se tornou um homem que admiro, respeito e amo.
	Se isso acontece, voc vai saber que melhor atitude tomar.
Helen resolvera conseguir Lorenzo de volta e, ao mesmo tempo, fazer com que todos os seus conhecidos voltassem a respeit-lo. Alugou um quarto em um pequeno hotel de frente para uma pracinha, onde ficavam os antigos colegas de escola de Lorenzo e, com a ajuda das mulheres da famlia Martelli, comeou a pr em prtica o seu plano. Tambm Renato e Bernardo haviam recebido instrues de como ajudar.
A noite estava chegando e tudo estava saindo como ela previra. O dono do hotel a ajudara a pr uma mesinha perto da janela e lhe arranjara um abajur que fora colocado sobre a mesa.
Helen escolheu o vestido que usara na noite em que conhecera Lorenzo. Soltara os cabelos que mantinha presos ultimamente. Da janela, pde ver Bernardo se aproximando, acompanhado do irmo. Pararam em um barzinho que ficava diante da praa, pediram bebidas e foram servidos em uma mesinha perto daquela onde estavam Tono, Enrico, Cario, Franco e Mrio, os colegas de escola que andavam fazendo brincadeiras de mau gosto com Lorenzo, desde que Helen o abandonara no altar.
Bernardo j fizera a sua parte agora Helen tinha que fazer a dela. Precisava restaurar a dignidade que Lorenzo perdera no dia de seu casamento frustrado. Toda Palermo tinha de voltar a respeit-lo e para tanto, Helen faria qualquer sacrifcio.
Acendeu a luz que estava em cima da mesinha junto da janela e abriu as cortinas, para os que estivessem l embaixo pudessem ver o. que acontecia no quarto. Desceu as escadas confiante e foi em direo  praa.
Lorenzo somente a viu, quando ela estava bem prxima dele. Levantou os olhos surpreso, reconhecendo o vestido que ela usava e lembrando-se do momento em que se haviam conhecido. Os rapazes da mesa ao lado ficaram atentos, satisfeitos por poderem presenciar o encontro do casal e obter material para mais fofoca.
	Voc quer alguma coisa de mim?  Lorenzo perguntou, curioso.
	Sim, quero.  Ela sentiu o corao palpitar mais forte. Esperou que ele se levantasse para cumpriment-la e o beijou diante de todos.
A princpio, ele no retribuiu o beijo, depois, sentiu que lhe voltava todo o desejo que sempre sentira por Helen. Acariciou seus cabelos negros e puxou-a para junto de si. A memria dos momentos que haviam passado juntos retornou com fora total.
Helen estremeceu de prazer. Estava novamente nos braos de Lorenzo. Fora tola em pensar que um amor to grande como o que sentiam, pudesse desaparecer por meros desencontros. Ele a queria para si e Helen sabia que lhe pertencia.
	E isso tudo o que voc deseja?  ele perguntou, quando se separaram.
	No. Quero que voc me acompanhe at a catedral e se case comigo  ela falou em voz baixa, de forma que apenas ele a escutasse.  O que mais quero na vida  me casar com voc.
	Tem certeza de que  isso mesmo o que quer?
	Sim, acho que essa  a melhor ideia que j tive at agora.  Ela o pegou pela mo e o levou para seu quarto do hotel.
Lorenzo a seguiu, a princpio meio hesitante, depois totalmente vencido pela atrao que sempre sentira por Helen.
J no quarto, Helen o levou at perto da janela e todos os que estavam na pracinha puderam ver o casal se beijando. De repente, comearam a aplaudir e Bernardo suspirou aliviado. Os homens voltavam a respeitar Lorenzo, agora que viam que a mulher que o abandonara no altar, lhe pertencia. Talvez ela agira daquela forma, no porque o desprezasse, mas porque talvez estivesse com raiva por saber de alguma traio.
As mulheres podiam ser geniosas, mas para os sicilianos era importante que fosse o homem a dar sempre a ltima palavra.
	Estamos nos beijando em frente do povo  ele reclamou.
	Temos que fazer isso. Todos devem saber que lhe perteno e fao o que voc quer.
	No ligo para o que eles pensam de mim!  Lorenzo exclamou.  E no quero que pensem mal de voc.
	Pois eu quero que o respeitem e, como estamos na Siclia, valorizo mais a sua honra que a minha. Agora feche a cortina e apague a luz  ela sussurrou.
	Voc planejou tudo isso, no ?
	At os mnimos detalhes. Todos me ajudaram, at sua me me ajudou.
Ele apagou a luz e ouviu uma algazarra l embaixo. No prestou mais ateno com o que acontecia fora daquele quarto, porque naquele momento, Helen tentava desabotoar sua camisa.
	Elena, voc tem certeza de que quer que isso acontea?
	Apresse-se. Estamos demorando muito para terminar um negcio que deixamos inacabado.
No havia mais nada a dizer. Lorenzo tirou a camisa e olhou para Helen que sorrindo comeava a acariciar o seu peito.
	Oh, sim, Elena, Helen...
	Quem est aqui  Elena, no Helen  ela afirmou, feliz com a surpresa que havia no olhar de Lorenzo.
Naquela noite, existia somente Elena, a mulher que estava pronta para se dar por inteiro, sem pensar nas consequncias.
Lorenzo precisava sentir o corpo de Helen e abriu o zper tirando-lhe o vestido. Ela no estava usando nada debaixo dele.
	Eu estava determinada a seduzi-lo  disse em voz rouca.
Aquele no era o momento de falarem. Estavam deitados, corpo contra corpo, deslumbrados com a beleza daquele momento.
As mos de Lorenzo tocavam o corpo macio de Helen, despertando-a para sensaes adormecidas. Tinham estado to perto de fazer amor naquete hotel de Nova Orleans, mas haviam sido interrompidos. Naquele momento, nada os deteria.
Olhando a mulher que amava, Lorenzo percebeu que ela mudara. No tinha mais as dvidas do ano anterior. Estava pronta para se entregar a ele, oferecendo amor em troca de amor, dando sua prpria vida e recebendo a dele.
Mais tarde, Helen sentou-se na cama e acariciou o corpo de Lorenzo, satisfeita em saber que bastava toc-lo para que ele ficasse bastante perturbado. Tudo era novidade para ela, pois nunca conhecera outro homem assim intimamente.
	Voc no me respondeu se aceita  ela falou em voz suave.
	Aceito o qu, carssima?
	Casar-se comigo.
	No h nada que eu queira mais do que me casar com voc, Elena  ele respondeu, puxando-a novamente para os seus braos. Agora que haviam se reencontrado, ele no mais a deixaria se afastar dele.

CAPTULO XII

Helen se olhava no espelho, encantada em se ver vestida de noiva novamente.
	Voc est linda!  Heather exclamou, enquanto lhe arrumava o vu. Helen abaixou a cabea, para facilitar o arranjo e a colocao da tiara de diamantes.
	Talvez eu no devesse estar usando-o agora...
	Por qu?  Heather perguntou, querendo que Helen se sentisse plenamente feliz naquele dia.
	Eu poderia ter escolhido um outro vestido. Talvez este v me trazer azar.
	Pare com essa parania  a amiga recomendou.  Este  o vestido certo para seu casamento com Lorenzo. A cerimnia se atrasou um pouco, mas  o mesmo casamento e tudo tem de estar como estava antes.
	Espero que nem tudo acontea do mesmo jeito...  Angie, que tambm estava ajudando a dar os ltimos retoques, comentou fingindo-se assustada.
As trs mulheres riram nervosamente. Ningum conseguira esquecer o triste episdio, em que Helen se recusara, diante de toda a igreja lotada, a se casar com Lorenzo.
	Bem, os detalhes tm de ser os mesmos. Inclusive vai tocar a mesma msica, vai ser o mesmo coral e a mesma igreja. Os noivos tambm so os mesmos...  Heather concluiu com ar amigo.
Bateram na porta e as trs moas se entreolharam. Chegara o momento de irem para a igreja. Nicolo, o pai de Helen, entrou sem pedir licena.
	Os carros chegaram  ele disse.
Heather e Angie, que iriam no carro da frente, beijaram Helen e saram, deixando pai e filha olhando um para o outro.
	Tem ainda alguma dvida, Helen?  Nicolo perguntou temeroso de ouvir a resposta da filha.
	Nenhuma, papai. Nunca tive tanta certeza de querer uma coisa como agora.
	Ento vamos? No devemos deixar o noivo ficar esperando demais.
	Claro, papai. Mame disse que iria mandar o meu buque de noiva. Onde esto minhas flores?
	De fato, sua me me entregou um ramo, mas no sei se o deixei no quarto. Deve ainda estar l.
	V busc-lo logo, papai.
Enquanto ele ia pegar o buque, Helen aproveitou para olhar pela janela. Estava na casa de Lorenzo, porque mamma An-tonieta jamais deixaria que organizassem uma festa de casamento sem sua participao.
	Voc est linda, minha filha  a mamma disse ao se despedir. Estaremos l para ver voc entrar com esse vestido lindo.	
Agora, olhando o jardim, enquanto esperava o pai, tudo o que via era o verde da primavera, brilhando sob o sol. Estava um tempo perfeito para se comear uma vida nova tendo ao lado o homem amado. Como ela acabara de dizer ao pai, o que mais queria na vida era se tornar a signora Martelli.
Nicolo entrou no quarto com ar desconsolado.
	No achei o buque e a culpa  de sua me. Ela deve ter escondido as flores.
	Papai, no jogue a culpa em mame. O senhor  que sumiu com meu buque. E agora, como vou me casar sem flores? Procure de novo, pai.
	Pois no consigo encontr-las.
	Ento vou sem o buque. Temos que nos apressar, porque no quero chegar atrasada.
	Toda noiva se atrasa  o pai comentou, acostumado em ir a casamentos.
	No esta noiva. Depois do que aconteceu da outra vez, no posso me dar ao luxo de chegar nem um minuto atrasada. Imagine s o que vo ficar imaginando se eu me atrasar um minuto que seja.
Guido, o chofer que Renato contratara recentemente, ajudou-a a subir no carro. Helen olhou o relgio e comeou a se acalmar. Estava adiantada, na verdade. Encostou-se no banco do carro e se lembrou da ltima vez que fora levada at a Catedral de Palermo. Lorenzo tambm devia estar se lembrando daquele dia e, bem l no fundo, temendo que tudo voltasse a acontecer. Ento, ela chegaria e todas as dvidas desapareceriam.
Ela sorriria para ele e lhe passaria a certeza de que desta vez era diferente e que uma nova vida estava comeando para os dois.
De repente, percebeu que o carro dava um solavanco. Parecia ter perdido os freios e Guido tentava manter o controle e no estava conseguindo. O carro passou por uma pedra, mudou de rumo e terminou saindo fora da estrada, caindo em um buraco.
	Oh, no... Isso no pode estar acontecendo!  Helen gemeu descendo do carro.
Guido e Vittorio tentaram tirar o carro da vala, mas no conseguiram. Tambm no seria prudente viajar em um carro sem freios.
Helen no parava de andar de um lado para o outro, parando no meio da estrada que estava deserta. Estava rezando para que algum carro passasse por ali e pudesse dar uma carona para ela e seu pai, mas parecia que quem tinha de passar por ali, j passara antes. Pensou ter visualizado um carro, mas vinha vindo to devagar, que ela achou que tudo no passava de miragem.
Na catedral de Palermo, Lorenzo estava esperando por ela sem saber que a noiva estava em um barranco  beira da estrada. Logo ele perceberia o seu atraso e concluiria que ela o abandonara novamente.
	Vamos avisar Lorenzo pelo celular  pediu ao pai.
Nicolo e Guido tentaram falar com Lorenzo e Bernardo, mas os telefones pareciam desligados.
	Vamos tentar o de Renato  Helen falou, agora j quase em prantos.
Guido foi logo dizendo que Renato mudara o nmero de seu celular e ele no se lembrava do nmero novo.
	Como no sabe o nmero do telefone do patro?  Nicolo comeava a perder a pacincia com o chofer.
	Calma, papai, Guido no tem culpa... Comeou neste trabalho h poucos dias.
	Mas eu acho que...
	Temos de dar um jeito de chegarmos at a igreja  Helen implorou.  Vamos deixar de lado as discusses e nos preocuparmos com coisas mais importantes. No podemos chegar atrasados em Palermo.
	E como vamos para l? Voando?
Ela apontou para um veculo que se aproximava.
	Mas  uma carroa com porcos dentro e puxada por um burro!
	Mas anda e eu quero chegar em Palermo!  Helen respondeu decidida.
Colocou-se no meio da estrada, conseguindo com que o carroceiro parasse surpreso por ver uma mulher vestida de noiva com vu e tudo gesticulando para ele.
	Tenho que chegar  catedral de Palermo  Helen lhe disse gentilmente.  Posso ir com o senhor?
	No h lugar  ele disse, apontando para os porcos.  Vou vend-los no mercado.
	Pois eu os compro agora. Quando custam?
O velho falou um preo, enquanto Nicolo gemia, acostumado a comprar animais por muito menos.
	 muito caro, filha. Esse homem quer nos explorar.
	Ento, nada feito  o velho senhor disse tranquilamente, voltando a pegar as rdeas da carroa.  Arranje outra conduo para levar a noiva.
	Papai, qual seria o preo razovel?  Helen perguntou, pois ningum como Nicolo negociava tanto com carne. O pai olhou o rebanho e lhe disse um valor baixo. Helen dobrou o preo e fez sua proposta.
O carroceiro comeou a discutir, ela discutiu tambm, falando em siciliano, e conseguiu fechar o negcio. A discusso recomeou, quando ela disse que estava sem dinheiro naquele momento e pagaria depois.
	Sem dinheiro, sem carroa  Enrico decidiu.
	Dobro o preo que o senhor pediu primeiro  Helen sugeriu desesperada.  E assino um papel em garantia. Pode confiar em mim. Sou a signora Elena Martelli.
	Voc  da famlia Martelli?
j Serei, se voc tirar esses porcos da carroa e me levar a Palermo.
O velho senhor deu as rdeas para o chofer de Helen, desceu da carroa e tocou os animais para a beira da estrada.
	Guido  ela falou para o chofer , voc tem de ficar por aqui, tomando conta dos porcos.
	Sem problemas. Vou telefonar para a garagem e pedir que venham me ajudar com o carro quebrado.
	Isso. Agora tome conta de meus porcos. Vou d-los a meu marido como presente de casamento.
Finalmente a carroa estava vazia e Helen entregou ao velho senhor um papel onde escrevera seu nome. Guido arranjou um pano e colocou no cho da carroa, para que Helen no sujasse o seu vestido de noiva.
	Obrigada, Guido. Papai, vamos logo.
	Eu? Voc espera que eu viaje em um veculo desses?
	Pois tem de vir comigo. Quem  que vai me levar at o altar?
	Se a famlia souber que eu andei nisso, vo rir de mim por anos.
	Prometo que no contarei nem para a tia Lcia de Maryland, assim ela no ter o que contar  tia Zita de Idaho que, por sua vez, no contar nadinha  .tia Clarrie de Los Angeles. Vamos, papai... Pare de reclamar e suba.
	Tem certeza que tenho de ir? Quero v-la se casando, mas vou chegar em Palermo em uma carroa de porcos?
	Papai, quero chegar na catedral e me casar com Lorenzo e voc tem de estar presente para me entregar ao noivo. Se no vamos na carroa, temos que ir a p.
Nicolo se resignou e obedeceu  filha, notando o gnio forte que ela possua. Era verdadeiramente uma siciliana.
	Pare de ficar nervoso.  Renato tentava acalmar Lorenzo.  Daqui a pouco, ela estar aqui, voc vai ver.
	Ela j devia ter chegado h cinco minutos atrs  Lorenzo gemeu bastante assustado.  Bernardo, v l fora e veja se vem vindo algum carro.
	Acabei de voltar de l. Deixei Angie e Heather l fora e elas vo nos avisar quando o carro aparecer.
	O que pode ter acontecido?
	Ela vai estar aqui logo, logo.  O prprio Renato comeava a ficar preocupado.  Sei o que voc est pensando, mas Elena no iria fazer uma coisa dessas. No se lembra de que ela enfrenta os problemas? Se fosse abandon-lo, viria aqui para lhe dizer isso pessoalmente.
	, como fez da outra vez  Lorenzo lembrou-se, tentando se apegar a esse fio de esperana.
Os convidados comeavam a se agitar nos bancos da igreja. Lorenzo sabia o que todos estavam pensando e queria gritar que eles estavam errados. Elena o amava e no ia fazer isso com ele. Era diferente agora. Ela confiava nele.
Os minutos foram passando e parecia que o pior acontecera. Fora abandonado novamente.
	Vocs ouviram? O que est acontecendo l na rua?  Renato perguntou curioso, chamando a ateno dos irmos para a movimentao na porta da igreja.
	Onde?
	Parece que estou escutando aplausos. Vou l ver  Re nato disse afastando-se dos irmos.
Bernardo foi atrs dele e, depois de alguns minutos, voltou correndo para dentro da igreja.
	Meu irmo, venha correndo ver quem est chegando!  gritou para Lorenzo.
A maioria dos convidados tambm correu para a porta ver o que acontecia. Logo todos aplaudiam entusiasmados.
Um veculo estava se aproximando e j entrara na rua Vittorio Emanuel, chamando bastante a ateno. O trfego parara e um guarda resolveu dar uma ajudazinha para o veculo que pretendia chegar at a catedral.
	Se no me engano,  a carroa de porcos de Enrico Caccelli 	Renato disse surpreso.
	E vem carregando...
	 verdade!  Lorenzo exclamou com os olhos arregalados. 	Vem trazendo...
	A noiva! Que mulher aparece no casamento dentro de uma carroa?  Renato nunca vira nada parecido.
	Minha Elena no  como as outras mulheres!  Lorenzo exclamou sorrindo abertamente.
A noiva o viu e acenou-lhe alegremente. Quando finalmente a carroa parou em frente da igreja, o velho Enrico Caccelli parou a mula to subitamente, que Helen perdeu o equilbrio e caiu nos braos de Lorenzo.
	O carro quebrou  ela comeou a dizer, mas ele a impediu de continuar, beijando-a com entusiasmo.
	Nunca duvidei de que voc viria  Lorenzo mentiu, escondendo a preocupao que sentira momentos atrs. Levantou Helen no ar e a levou at os degraus da catedral.  Vamos entrar juntos, porque no vou larg-la, enquanto voc no se tornar a signora Martelli.
	Pois  o que mais quero no mundo  Helen lhe assegurou.  Nada vai impedir o nosso amor, querido.
	Ento vamos!
Os convidados continuavam aplaudindo e o coral comeou a cantar.
Lorenzo Martelli e Elena Angolini entraram na catedral para o casamento que havia sido planejado provavelmente no cu.

FIM
